Ainda a Europa e a actual guerra
Do pouco que sabemos sobre quem determinou o desenvolvimento das culturas orientais, podemos, talvez, aceitar que a Índia e a China foram os centros de difusão de um pensamento e de uma maneira de estar na vida diferentes da que seguimos no Ocidente.
Quando os povos do Ocidente, mais em concreto os europeus e, dentre estes os portugueses, chegaram ao Oriente perceberam que o modo de estar, de pensar e de conceber a vida eram divergentes dos padrões a que estavam habituados.
Se calhar, sem nunca terem reflectido maduramente sobre a forma de resolver as divergências culturais, os europeus usaram o processo mais velho que conhecemos para ultrapassar barreiras que pareciam ‒ e ainda parecem ‒ difíceis de transpor: a conversão à religião dominante na Europa: o catolicismo. Foi esse o método usado pelos Fenícios, os Gregos, os Cartagineses e os Romanos: conversão aos deuses que os regiam e aos quais praticavam culto. A religião foi, ao longo dos milénios, um instrumento de ultrapassagem de diferenças culturais. Foi usando-a e exportando-a que a Europa gerou aquilo que se designa hoje por cultura ocidental.
Às vezes, a ocidentalização de certos povos é mais aparente do que real; basta trajar e comportar-se socialmente como um ocidental para se julgar que o modo de pensar e agir corresponde ao padrão europeu; nada mais enganoso!
Ora, se isto é verdade entre um europeu e um oriental, também é verdade entre um europeu e um asiático, que não seja chinês, mesmo que professe a religião católica, embora ortodoxa. Mais verdade será se se tratar de um asiático islâmico.
Faço esta divagação com, aparentemente, pouca importância para ajudar a perceber que houve um conceito exportado pelos europeus para todo o mundo e que, por não ser uma religião, nem ter características ritualistas, é tomado de formas diferentes nas diferentes partes onde chega. Refiro-me à democracia.
Ainda antes da Revolução Francesa, quando as colónias americanas da Inglaterra se tornaram independentes, formando os Estados Unidos, a Constituição Política consagrou o regime democrático republicano como aquele que devia ser praticado pelos povos que se queriam livres de um monarca e de poderes discricionários. Era a vitória da liberdade sobre a tirania de então. A Revolução Francesa veio confirmar a justeza do princípio, levando a que o liberalismo (a liberdade do indivíduo poder dizer o que pensa, desde que não fira as normas de Direito consagradas, a liberdade de oportunidades para fazer o que a Lei não condena, mas que o pode levar até onde for capaz, a liberdade de poder exigir igual tratamento entre os cidadãos) se espalhasse pela Europa, quer sob a forma de monarquia quer de república. No continente americano ‒ do Sul ao Norte ‒ a democracia e a república foram aceites em todos os Estados, umas vezes mais cedo e outras mais tarde.
Mas a democracia não é um ritual religioso, nem tem regras rígidas. A democracia liberal (para a distinguir da popular) foi, é e há-de ser aquilo que os homens quiserem que seja; os escravos não votavam, nem as mulheres, nem os analfabetos, nem os que não pagavam impostos, nem estes nem aqueles a bel-prazer dos que definem as constituições políticas segundo a vontade dos grupos sociais dominantes.
E não se julgue que isto foi no passado distante! Não. Leia-se, por exemplo, de Barack Obama, Uma Terra Prometida, ou, de Anne Applebaum, O Crepúsculo da Democracia: O Fracasso da política e o apelo sedutor do autoritarismo, ou, de Robert J. Lieber, A Era Americana, para perceber que a democracia liberal tem latitudes tão variadas que nela podem, quase sem esforço, incluir-se regimes policiais, persecutórios (exercendo a perseguição de modo subtil), alienantes (por deformação da verdade), selectivos nas possibilidades de mobilidade social, limitativos da comunicação social (impõem sanções de vária natureza a quem não difunde a verdade oficial) e toda uma panóplia de desvios àquilo que se pensa ser a liberdade democrática liberal.
É, por força destas distorções, que falar em democracia relativamente a certos países da Europa corresponde a uma mentira só perceptível por poucas pessoas bem informadas e, por isso, não alienadas pelos mecanismos da propaganda política usados para parecer aquilo que realmente não é. Hoje há ditaduras-democráticas ou, se se preferir, democracias-ditatoriais em que as vítimas não sentem o peso da ditadura (aquela que se assumia como tal), porque estão cegas, não conseguindo ver para além do que lhes é determinado. Sem receio de errar, excluindo os casos mais conhecidos e que andam badalados nos jornais ou em livros de especialidade ‒ a Turquia, a Polónia e a Hungria ‒ arrisco a dizer que na Europa, em geral, a democracia vive num plano inclinado para a direita radical, que é perita (tal como a sua oposta à esquerda) em distorcer as realidades, envolvendo-as com mantos pouco diáfanos de uma propaganda exaltada por nacionalismos sem sentido, xenofobias fora de tempo e slogans a transbordar ódio vazios de sentido no momento que corre.
Não tenho dúvidas que, por mais que se grite o contrário, a democracia ucraniana está muito próxima da sua companheira ideológica russa ou húngara, ou turca.
Ora, sendo assim, e sabendo que os mecanismos condicionadores da democracia, da verdadeira, daquela que se deseja limpa de influências e interesses económicos, políticos e ideológicos (daquela em que o cidadão é dono de si e pode fazer valer os seus interesses) apoiar democracias selectivas pode corresponder, no curto espaço de alguns anos, a ter dentro de portas ideologias de extrema-direita, que se julgam legitimadas em função dos apoios dados à Ucrânia, onde, depois de a guerra ter acabado, certamente, se vai implantar uma democracia-ditatorial. A Europa em geral e a União Europeia em particular deveriam estar muito atentas a este fenómeno para não virem a sofrer instabilidades com as quais terão dificuldades acrescidas em lidar. Cuidado, a democracia, não sendo uma religião com ritos, tende a adaptar-se à cultura dos povos onde se diz que está implantada e as culturas eslavas, tal como as orientais, não são idênticas às da nossa Europa!
Será que os tecnocratas de Bruxelas e os políticos europeus são capazes de percepcionar o panorama que expus na generalidade?