“A Vizinha do Lado” e “Mata Hari”
Há dois ou três dias tive oportunidade de ver na televisão dois filmes que em nada parecem ligar-se, mas que, afinal, bem meditadas as cenas há uma conexão fantástica, à qual não quero fugir e dar dela conta aos meus leitores.
André Brun (1881-1926) foi um militar e humorista português que se dedicou à escrita de contos e crónicas, de livros e peças teatrais. Uma das peças que tem mais renome é “A Vizinha do Lado”, que foi adaptada para o cinema, em 1945. Foi essa versão que eu revi pela enésima vez. E, quase de seguida, o filme mais ou menos biográfico “Mata Hari”.
No primeiro, trata-se de uma história de costumes que, o filme, se situa em Lisboa pelo início dos anos de 1920, embora a peça tenha sido escrita no ano de 1913. É uma comédia que se passa no mesmo piso de um prédio das avenidas “novas”, perpendiculares à avenida da Liberdade. Num dos lados vive um jovem autor de revistas teatrais, solteiro, de boa figura, com a sua amante e, no outro uma senhora, de meia idade, proveniente de uma pequena ou média burguesia urbana, solteira que se faz acompanhar de uma afilhada, jovem, sonhadora, com uma educação que se presume esmerada e mais uma criada de servir.
O jovem autor de revistas é de Famalicão e veio para Lisboa estudar medicina, faculdade que deixou de frequentar quando percebeu que a vida nocturna era muito mais atractiva, continuando, no entanto, a esportular à família a mesada costumeira com a desculpa do preço dos livros e da vida, que estava cara.
Veio de lá de cima, em caminho-de-ferro, um tio, solteirão, professor de moral, no liceu de Famalicão, que já não vinha à capital desde 1880, para tirar a limpo os progressos do sobrinho.
No transporte público, já em Lisboa, o tio que era maroto, tenta conquistar, á maneira da época, a amante do sobrinho, acabando por lhe entregar um cartão de visita com uma única interrogação: «Combinado?» Tendo-a seguido, depois, a pé, na esperança de ver satisfeitos os seus desejos libidinosos.
Todo o filme, tal como a peça, vai passar-se à volta dos ciúmes que a jovem companheira do suposto estudante de medicina tem da vizinha do lado, que toca piano sem grande vocação, acabando, tal como seria de esperar, por a amante sair de casa, deixando o caminho livre à jovem pianista, afilhada da vizinha solteirona, que, afinal havia sido namorada, em 1880, do tio do suposto estudante de medicina. Ambos voltam, romanticamente, a enamorar-se e tudo acaba, aparentemente em bem.
Perguntar-se-á o leitor qual a ligação ao filme da célebre espia fuzilada pelos franceses. Ora, é sobre isso que se desenvolve a minha comparação.
Com efeito, Mata Hari, a bailarina e cortesã, no filme, mostra, com bastante soma de pormenores, a facilidade como se deixava enredar pelos cavalheiros, que previamente seleccionava, sabendo ou prevendo as prendas que iria receber ou as contas que iriam ser pagas. Claro que bastava a troca de meia dúzia de frases ou, até, um simples olhar para todas as combinações estarem feitas no futuro próximo.
Eram assim os “engates” do começo do século XX, com toda a carga de sofisticação herdada do final dos anos da centúria anterior. Havia um saber fazer as coisas, que sempre se fizeram, sem ter de mostrar explicitamente e de modo desabrido e descarado, as intenções. É essa mesma subtileza que o tio do autor de teatro de revista, vindo de Famalicão, usou na tentativa de conquistar a amante do sobrinho, que não trazendo na testa nenhum cartaz a anunciar a sua “facilidade” teve, no transporte público, um comportamento que o velho moralista percebeu de imediato a abertura para o avanço e lhe deu azo para lhe entregar, se calhar com discrição, o cartão de visita onde estava tudo implícito. Mata Hari e a atriz amante do embuste de médico eram iguais e os comportamentos em quase nada se diferençavam, talvez somente na paixão que a última nutria pelo jovem autor de peças teatrais. Quem sabe quais foram as verdadeiras paixões de espia alemã fuzilada pelos franceses durante a Grande Guerra?