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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

17.05.22

A Suécia a Finlândia e a NATO


Luís Alves de Fraga

 

Depois de há mais de duzentos anos, a Suécia ter sido uma potência militar europeia com algum significado, remeteu-se a um estatuto de neutralidade quase irredutível. E percebe-se a razão: a sua localização geográfica, entalada entre a Finlândia, a Noruega, o Mar Báltico e a Dinamarca, não a coloca no caminho dos grandes conflitos europeus, para além de que a cordilheira que estabelece a fronteira com a Noruega representa um obstáculo ao avanço por aquele lado, assim, só tem que se preocupar com o Báltico e o complexo de estreitos a Sul. O próprio clima não é convidativo a grandes incursões. Manteve e mantém umas boas forças armadas, com especial ênfase na Força Aérea, que foram elementos de segurança e dissuasão suficientes.

Quanto à Finlândia (independência em 1919) e para não termos de recuar ao período anterior à 2.ª Guerra Mundial, nem a este mesmo tempo de conflito, pode dizer-se que o seu natural adversário foi a Rússia, antes e depois da URSS, o que a obrigou a um estado de permanente alerta e de grande prontidão das suas forças armadas, que, aliás, não são despiciendas.

 

Com a guerra russo-ucraniana parece ter-se definido um novo quadro na Península Escandinava e, segundo as notícias que têm vindo a lume, com excessiva persistência, a culpa dessa mudança deve-se à agressão de Moscovo sobre Kiev. E, parece, tem lógica este argumento. Contudo, para mim, esta lógica é a informação político-militar que a NATO e os EUA pretendem que nós aceitemos como se fossemos burros amarrados a uma manjedoura cheia de palha.

Sempre gostei de procurar ver os problemas sociais e políticos virando-os ao contrário de modo a poder apreciar a outra face. É o que vou tentar fazer agora, neste exercício, que, admito, pode ser especulativo, mas também ele tem a sua lógica. Vejamos.

 

Como linhas antes afirmei, se admitirmos que toda a presente crise começou e se deve à invasão da Ucrânia por parte das tropas russas, parece que a Finlândia e, até a Suécia, deviam integrar-se na NATO, pois, deste modo, ao abrigo do artigo 5.º do Tratado, um ataque a qualquer dos Estados integrantes da Aliança corresponde ao ataque a todos os restantes, então, antes que Moscovo dê ordem de expansão territorial, convém estar garantido o auxílio.

Vamos pôr o problema de outra maneira.

A Rússia invadiu preventivamente a Ucrânia, porque, embora Kiev estivesse avisada por Moscovo, teimou em fazer parte da NATO, levando os russos a correr o risco verem colocado muito mais perto da sua fronteira armamento capaz de os atacar ou de os intimidar, porque a defesa tem por finalidade dissuadir o possível agressor, ainda que este nunca efective esse papel. Ou seja, tendo a Ucrânia, os EUA e a NATO seguido à risca o aviso latino, devido a Flávio Vigécio, si vis pacem para bellum ‒ o mesmo é dizer, se queres ter paz prepara-te para a guerra ‒ eles estão a potenciar uma defesa que é, em simultâneo, uma ameaça, com a agravante de aumentarem a hipótese de a Rússia ficar muito mais exposta do que se a Ucrânia se comprometesse a não autorizar bases ou armamento da NATO dentro das suas fronteiras.

Assim, a invasão da Ucrânia transforma-se numa acção militar preventiva contra um aumento de potencial militar da NATO e, consequentemente, dos EUA contra o território russo. Deste modo, deu-se aqui uma inversão do casus belli: a continuidade da política ucraniana, americana e da NATO é que espoletaram a decisão de Moscovo. Por conseguinte, daqui para a frente, quanto maior for o apoio às tropas ucranianas maior se torna a possibilidade da Rússia fazer pressão sobre as fronteiras onde a NATO não é obrigada a intervir por se tratarem de Estados não pertencentes àquela Aliança. Pode parecer inconcebível, mas a abertura de uma nova frente de combate por parte da Rússia não deixaria de ser uma forma de aliviar a pressão que tem a Sul, em especial se essa nova frente estiver mais próxima da fronteira dos EUA. A Finlândia poderia ser a solução.

 

Esta leitura diferente para o pedido de adesão da Finlândia e da Suécia à NATO dá-nos assim, a possibilidade de interpretar o movimento como uma medida defensiva dos dois Estados escandinavos, mas, ao mesmo tempo, sendo defensiva acaba ampliando a ameaça à Rússia, porque vai fechando o cerco a Ocidente, empurrando Moscovo para o Norte e para o Oriente, na direcção dos braços da China. Colocam-se, pois, as perguntas:

‒ Qual é o objectivo dos EUA, sabendo, realmente, que o apoio à Ucrânia não é o apoio a uma democracia? Sabendo que a Turquia, a Hungria e a Polónia são meros simulacros de democracias (convirá ler, da insuspeita Anne Applebaum, O Crepúsculo da Democracia: O fracasso da política e o apelo sedutor do autoritarismo, de 2020) por que é que os EUA querem atacar a oligarquia russa? Será que toda esta jogada estratégica visa desmembrar a União Europeia, porque a onda de choque resultante desta guerra vai reflectir-se sobre a condução da política externa de Bruxelas nas diferentes capitais da Europa, com especial peso em Paris e Berlim, daí esta imensa campanha de desinformação e de apoio emocional à Ucrânia, que nos embota o raciocínio e nos leva a acreditar sem hesitação no que vemos e ouvimos?

 

Não tenho respostas, como é natural. Não aposto, como certos comentadores, na leitura da bola de cristal, por isso, aconselho a que não se embarque nesta loucura de uma posição anti-russa e pró-ucraniana, porque há muito jogo escondido por trás de tudo o que se está a passar. Vale a pena acreditar na democracia liberal quando ela é lógica, límpida e favorável aos interesses colectivos.

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