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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

05.11.20

A saúde mental dos Portugueses


Luís Alves de Fraga

 

Não careço de ser especialista em medicina mental para perceber certas evidências próprias do senso comum e entre elas está o resultado da tensão psíquica que esta pandemia vem gerando entre nós, pelo menos entre os mais preocupados com a segurança sanitária individual e colectiva.

 

A sociedade de consumo, esta onde vivemos, baseada no uso e deita fora, vocaciona-nos ‒ uns mais do que outros, naturalmente, em função da educação e, até, das posses financeiras ‒ para tudo (e, quando digo tudo, é mesmo tudo) ser fugaz em nós. Começou por ser a moda a impor-nos a mudança no trajar e agora já se estende às relações pessoais, ao emprego, ao estudo, às leituras, à comida, às viagens e, por conseguinte, a todos os hábitos, que eram, isso mesmo, habituais. Este mesmo texto só vai ser lido por umas escassas duas dezenas (se for!) dos meus amigos, de entre a vasta panóplia daqueles que poderiam ler e não lêem.

‒ Querem saber o motivo?

‒ Porque já vai extenso! Porque demora, porque não se limita a uma mensagem rápida para ser apreendida com um só olhar.

Usufruir é um vocábulo que perdeu sentido, na exacta medida em que usufruir estava associado à ideia de permanência, de remanso, de tranquilidade, de sentir com lentidão. Usufruir, agora, é passar e seguir, é, acima de tudo, poder dizer que se teve ou esteve.

 

A pandemia veio para ficar ‒ está a usufruir de nós, no sentido tradicional do termo! ‒ num momento em que já não temos paciência, nem hábito, nem capacidade para enfrentar seja o que for mais demorado do que o tempo de arder um pau de fósforo.

Isso justifica quase tudo o que nos está a suceder, desde não deixar de produzir, trabalhando, até não conseguir estar em casa, ocupando o tempo com tudo aquilo que não se pode fazer porque se está, usualmente, fora de casa.

Como historiador, ocorre-me um exemplo do tempo medieval ‒ um tempo em que a ideia de consumo era bem diferente da de hoje. Vamos olhar para trás e situar-nos no Inverno do ano de 1140, naquilo que começava a ser Portugal?

 

Pois bem, estamos no mês de Dezembro, numa cidade ou vila do Norte, à sombra protectora do castelo senhorial. Chove e faz frio. As janelas das casas e do castelo não têm vidraças. No castelo, o nobre, a família e os seus familiares chegados passam o dia e grande parte da noite na ampla cozinha onde, numa grande lareira, se colocam toros de madeira e se cozinham as refeições. A criadagem mistura-se com os senhores, servindo-os de comida e vinho. Conversa-se, fia-se, tece-se em teares caseiros, canta-se, dança-se, dormita-se, ouvem-se e contam-se histórias, reza-se e só muito tarde se recolhem aos aposentos frios onde existem camas, tapetes no chão, peles de animais e, nas paredes e janelas, grandes tapeçarias para quebrar o vento e a chuva que entra pelas estreitas frestas. Os dias sucedem-se sempre iguais até que a Primavera começa a despontar e se podem aparelhar os cavalos para se caçar aves ou javalis, cabras monteses ou outros animais de menor porte. Eventualmente, se houver conflitos com os senhores vizinhos, começam-se a fazer os preparativos para, no tempo mais quente e seco, iniciarem-se as investidas militares.

 

Nas casas da vila ou cidade, os habitantes, em espaços muito mais exíguos, menos confortáveis e, por vezes, menos aquecidos, ocupam-se de maneira semelhante, com menos dança e menos música, mas, quiçá, com mais histórias e vagas saídas aos campos para colher alguns frutos e caçar, com armadilhas, carne fresca de coelho. Hábitos de higiene é coisa que não existe. A água recolhe-se em poços, nas traseiras das casas, ou directamente da chuva, em barricas de madeira. No fundamental, os habitantes convivem dentro de casa ou na igreja onde vão orar.

 

Morria-se mais cedo de doenças que hoje não matam de imediato, mas sabia-se matar o tempo de acordo com as estações do ano, guardando-se as mais quentes para sair de casa. Sabia-se estar confinado e havia conformação com as impossibilidades. As pessoas desfrutavam do que tinham, uns mais, porque tinham mais, outros menos, porque tinham menos. E não havia distúrbios mentais, nem psicoses, para além das resultantes de consanguinidades ou taras de nascença.

Nas nossas casas, agora, temos tudo e, afinal, sentimos como se nada tivéssemos, porque nos sobra a ansiedade de não ter nada. Esta é a cultura do consumo, a da necessidade de ter necessidade.

Se fossemos capazes de perceber este fenómeno talvez conseguíssemos, agora, num tempo de resguardo, gozar melhor do que temos para viver rodeados do mundo que nos entra pela porta dentro em rajadas de comunicação.

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