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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

26.06.22

A porta dos fundos


Luís Alves de Fraga

 

As sanções económicas aplicadas à Rússia por causa da invasão da Ucrânia não têm os mesmos efeitos do que as que os EUA estabeleceram sobre, por exemplo, a Venezuela ou, muito antes, Cuba. Os Estados fracos e com pouca capacidade de manobra e de fuga para a frente têm de suportar a miséria que lhes é imposta em nome da sacrossanta democracia americana. O mesmo não acontece com a Rússia, porque sendo um grande produtor de petróleo e de gás, pode dar-se ao luxo de os vender, a preços altamente concorrenciais, a outros mercados que não os do Ocidente. Esta medida desequilibra, quase por completo, a acção sancionatória, pois estabelece novos mercados onde a concorrência sobre o Ocidente pode, a curto prazo, revelar-se prejudicial para as populações habituadas ao conforto e bem-estar que vinham beneficiando como consequência da paz na Europa. É o que, entre nós se chama, sair o tiro pela culatra.

 

Ora, segundo penso, a manobra de propaganda desencadeada pela Ucrânia, logo após o início da invasão, requerendo sanções contra a Rússia, terá sido orquestrada a partir de Washington e levou parte dos países da UE a aceitá-las face à desgraça de um Estado soberano agredido por uma potência muito maior e mais poderosa. Bruxelas caiu na armadilha, dada a semelhança que, de imediato, se estabeleceu entre Putin e Hitler, trazendo às capitais europeias a lembrança histórica da 2.ª Guerra Mundial. Reforçou-se esta parecença com auxílio de uma outra: a ambição de Pedro, O Grande, czar fundador do império russo. Assim, a conclusão imediata era a de que Putin tinha encarnado as duas figuras históricas e queria expandir a Rússia de hoje até onde lhe fosse possível, na luta contra o Ocidente.

Tudo isto era uma imensa nuvem de propaganda para consumo das massas de modo a encobrir a verdadeira acção de provocação dos EUA contra a Rússia; acção que já vinha sendo desenvolvida, desde 2014, através dos ucranianos, na luta constante sobre as populações russófonas da região do Donbass. Moscovo fez saber junto da capital da Ucrânia que tais procedimentos eram inaceitáveis e muito mais se Kiev continuasse a insistir na adesão à OTAN. A decisão do Kremlin não saiu de uma cartola como o fazem os prestidigitadores, tal como se fosse um truque para enganar todo o mundo. Não. A invasão foi uma reacção a uma acção, que se quer esconder, que se pretende fazer aceitar inventando receios e gerando medos.

 

A entrada da Ucrânia na OTAN representava para Moscovo uma ameaça, porque, estrategicamente, Washington estava a apertar o cerco à Rússia através da possibilidade de, cada vez mais perto da fronteira, poderem ser colocados mísseis de longo alcance capazes de atingir cidades russas até então não alcançáveis se fossem usados os mesmos projécteis, mas partindo de regiões mais distantes. Este é o cerne de todo o conflito. Trata-se da inversão dos actores na já histórica crise dos mísseis de Cuba, a qual Khrushchov e Kennedy souberam gerir exemplarmente e deve notar-se que Fidel Castro não mandou, antes ou depois da crise, que se atacasse a base americana de Guantanamo, instalada em território cubano. Desta vez os cubanos são ucranianos e os soviéticos são americanos e, propositadamente, não quiseram gerir a crise, evitando um estado de guerra.

 

Resta-me, no meio de tudo isto, uma dúvida: os políticos dos Estados europeus ‒ os mais importantes ‒ aperceberam-se da jogada americana ou percebendo-a foram coniventes com os EUA? É que, se a segunda hipótese for a verdadeira, tal conivência corresponde a aceitar a estratégia dos EUA enquanto potência global e, por conseguinte, uma subalternidade que coloca a soberania destes Estados ao dispor de Washington.

Não se julgue que se trata de um delírio meu! Robert J. Lieber (não é um tonto qualquer, mas um professor de ciência política e relações internacionais, na universidade de Georgetown), em 2005, já preconizava, na sua obra A Era Americana (p. 18) que um dos objectivos do seu livro era provar que «(…) num sistema internacional sem uma verdadeira autoridade central e em que os Estados Unidos são a potência dominante, os outros países continuarão a olhar para nós em busca de liderança. Neste sistema anárquico e unipolar, se a América não se envolver em aventuras mais perigosas, é pouco provável que alguém mais tenha capacidade ou vontade para o fazer».

Haverá muito mais a dizer? Esta frase, traduzindo um pensamento estratégico, poderia ser actual e diz tudo e explica tudo sobre a actuação dos EUA no momento presente. Explica também a subordinação dos Estados europeus, em especial os da União Europeia aos ditames dos EUA.

 

Face a esta estratégia, qual poderá ser a da Rússia, que, declaradamente, já só é uma grande potência mundial devido ao seu arsenal nuclear? A resposta é aquela que Moscovo está a dar: definir um novo mundo, usando a porta dos fundos, ou seja, gerar uma barreira que a separe da Europa, cortando com todos os laços que ainda mantinha com a União Europeia, depois da queda do regime soviético, e reforçar-se no Oriente, através de uma ligação económica a alguns dos países emergentes. E nós, os europeus, continuamos alegremente sem capacidade de definir uma estratégia autónoma. Até quando?

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