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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

28.06.22

A OTAN em Madrid


Luís Alves de Fraga

 

Madrid vai ser a cidade onde se encontrarão e confrontarão os membros dos governos dos países que fazem parte da OTAN. O confronto vai ocorrer entre, pelo menos, a Turquia e o secretariado-geral por causa da entrada na Aliança da Suécia e da Finlândia. E o papel da Turquia encontra várias justificações para ser o que é. Vejamo-las com um pouco mais de pormenor.

 

O governo de Ancara tem uma razão de peso para desconfiar do Ocidente, em especial da Europa ou, melhor dizendo, da União Europeia (UE): a recusa, já com várias décadas, na admissão no clube europeu. Claro que as justificações de Bruxelas foram sempre válidas ‒ nem ponho em dúvida, por um segundo que seja, esse facto, agravado agora com a pseudo democracia existente no país ‒, mas isso não invalida que exista por parte dos turcos (dos mais ocidentalizados, claro está!) um sentimento de frustração, de desgosto e de quase raiva (será que Erdogan teria chegado onde chegou se o país estivesse já integrado na UE? Esta é uma das grandes interrogações que subsistem nos dias de hoje).

Como é evidente, a OTAN não é a UE, mas, é certo, um grande número de países da UE faz parte da OTAN, o mesmo é dizer que, de um modo ínvio, os EUA têm um pé dentro da União Europeia. O conceito estratégico da Aliança condiciona a estratégia de defesa, que terá de ser definida pela UE.

Ora, face a estes condicionalismos, é natural que a Turquia, no seu próprio interesse, e porque já foi uma das pontas-de-lança mais importantes da OTAN contra a, então, URSS não queira perder estatuto junto da Aliança (mantendo, contudo, hoje, um diálogo com Rússia, que não é a URSS dos anos de 1960 e seguintes e que Ancara sabe separar convenientemente ao contrário de algumas outras capitais do mundo). A Turquia perderá estatuto na OTAN quando a Finlândia e a Suécia forem membros de pleno direito da Aliança. Perde, pois a manobra estratégica de envolvimento da Rússia deixa de passar, em primeiro lugar pelo seu território, a Sul, para se deslocar para Norte, em especial para o Mar Báltico. Ancara, como é natural neste tipo de jogo, inventa ou gera condições que impeçam a adesão dos Estados do Norte à OTAN; condições que são disfarces dos seus objectivos principais. E, muito mal andará o secretário-geral da Aliança, bem como todos os membros da mesma se fizer ouvidos de mercador às razões (verdadeiras e estratégicas) da Turquia, pois pode levar esta a, conduzida pelo poder autocrático de Erdogan, subverter a ordem mediterrânica da OTAN, saindo da Aliança e juntando-se à Rússia, dando-lhe livre passagem da sua força naval do Mar Negro para o Mediterrâneo.

 

Em Madrid, para além deste quadro, que, por enquanto, não passa de uma hipótese colocada por mim, terão de ser analisados (julgo eu) os efeitos adversos que a guerra está a produzir na economia do mundo Ocidental, uma vez que não vai ser pela via sancionatória que se vergará a Rússia, verificando-se o efeito bumerangue que já nos afecta a todos e que, dentro de pouco tempo, começará a minar a vontade de combater a política de Putin através do apoio financeiro e militar que se está a dar à Ucrânia (cada vez mais exigente e imperativa nos areópagos onde dão a palavra ao seu presidente). Aliás, estando atento às notícias que passam nas nossas televisões, tive oportunidade ouvir da boca de ucranianos, que, ao lamuriarem-se da guerra, mostram o desejo de que se alcance a paz. Ou seja, as próprias vítimas, os mais afectado pelos acontecimentos, querem acabar com o conflito para retomarem a vida dentro das possibilidades mais próximas daquilo que era a sua normalidade.

Podemos interrogar-nos sobre esta atitude de gente simples das pequenas cidades ucranianas, de gente que vive do seu trabalho e, para mim, a resposta surge quase transparente, se olhada à luz de uma certa faceta sociológica. Vejamos.

A Ucrânia foi elevada à categoria de Estado independente no ano de 1991, o mesmo é dizer há trinta e um anos. Não é em três décadas que se altera, para os mais velhos, o sentido de pátria, pois eles nasceram russos e tiveram de aceitar uma mudança para a qual em pouco ou nada contribuíram, daí esse sentimento de acabem com a guerra, pois, se tivessem oportunidade de continuar a falar e fossem capazes de o fazer, diriam porque não faz sentido lutar contra aqueles que ontem eram nossos compatriotas. E não se argumente, por favor, com o facto de existir o sentimento de identidade no povo ucraniano em oposição ao povo russo, pois no território da Rússia actual coabitam várias etnias, vários idiomas e várias religiões. Assim, as negociações para uma paz imediata têm de ser impostas a uns quantos tiranos que na Ucrânia falam ou julgam ou querem falar em nome de um povo que está destroçado e morto por um conflito que, em boa verdade, nada lhe diz.

A paz é imperativa, mesmo que à custa de perdas territoriais para bem do equilíbrio regional no Leste da Europa e para a tranquilidade do mundo Ocidental, que inclui os povos famintos de África.

Se, em Madrid, as decisões da OTAN forem no sentido das que se afirma terem sido as da reunião do G7, muito provavelmente iremos ter um Inverno bastante frio, não só por descontentamento, mas, também, por causa de uma inflação a que no Ocidente já não estávamos habituados há muitos anos.

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