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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

29.06.22

A OTAN durante a URSS e depois


Luís Alves de Fraga

 

Creio que já aqui falei da criação da OTAN, em 1948, e das suas finalidades, todavia, volto com brevidade ao assunto para lhe dar continuação nos anos posteriores e, em especial, depois da implosão da URSS.

 

No ano da fundação vivia-se ainda o final da 2.ª Guerra Mundial e o receio de um ataque da URSS não era de todo infundado, porque Moscovo havia garantido, em Ialta, que os Estados independentes e soberanos que ficavam na sua esfera de influência manteriam regimes democráticos e livres de influências estranhas. Ora, o que aconteceu entre 1944 e 1948 foi algo diferente: o Kremlin estendeu a sua asa protectora a esses países e, de forma clara ou ínvia, transformou-os em democracias socialistas, o mesmo é dizer, em regimes de repressão política consonante com o da URSS.

Exactamente o mesmo processo atingiu a dividida Alemanha nazi, que se tornou independente, a Leste, formando um novo Estado: a República Democrática da Alemanha.

Tratava-se de uma cunha enfiada na Alemanha Federal que poderia ser a ponta-de-lança para uma invasão da Europa Ocidental, no todo ou na parte. Este receio agravou-se quando, em Junho de 1948, a URSS decretou o bloqueio da cidade de Berlim (que estava incluída na Alemanha Democrática) de modo a levar as outras potências ocupantes ‒ EUA, Reino Unido e França ‒ a retirarem-se, cedendo a antiga capital da Alemanha ao novo Estado, o mesmo é dizer, à influência soviética. Esta crise foi traumatizante para os Aliados e fez temer, no Ocidente, pelas intenções soviéticas. Contudo, se quisermos ser perfeccionistas e olhar com muita atenção para a sequência dos factos veremos que a OTAN foi, realmente, criada em 17 de Março de 1948, pelo Tratado de Bruxelas, e o Bloqueio de Berlim começou no dia 24 de Junho do mesmo ano. Ou seja, o bloqueio é uma resposta estratégica à criação da Aliança.

Não pretendo dizer que as intenções da URSS não fossem aquelas que vulgarmente se lhe atribui, mas a realidade cronológica mostra bem que, enquanto a ameaça soviética não passava disso mesmo ‒ medo do que Moscovo pudesse fazer ‒, a ameaça Aliada transformou-se em força militar concreta. Estamos perante um jogo estratégico do mais puro calibre: os Aliados mexeram a rainha no tabuleiro do xadrez internacional e a URSS moveu o cavalo para gerar um xeque que não era mate, mas foi de difícil resposta (a ponte aérea para alimentar os berlinenses durou onze meses).

Curiosamente, como já disse noutra altura, a criação do Pacto de Varsóvia resultou da integração da Alemanha Federal na OTAN. Como se vê, mais uma vez, a aliança entre Estados soviéticos foi uma resposta estratégica a uma jogada dos Aliados e não o contrário.

A única iniciativa de Moscovo a que os EUA tiveram de dar resposta, porque representava uma verdadeira ameaça à integridade do seu território, foi a chamada crise dos mísseis de Cuba; de resto, o equilíbrio foi sempre mantido com movimentos estratégicos mais ou menos duros por parte do Kremlin.

Mas é preciso considerar que todos os momentos de tensão decorreram do enfrentamento directo dos dois blocos no âmbito do Atlântico Norte, porque houve os conflitos periféricos, fora desta zona, nos quais, umas vezes os americanos e outras os soviéticos, se envolveram directamente e outras indirectamente.

 

Quando em 26 de Dezembro de 1991, foi dada por finda a existência da URSS, os diferentes Estados que a compunham ‒ alguns já se haviam antecipado ‒ sentiram-se livres para iniciar o caminho para a tão desejada como fantasiada economia de mercado a par de uma democracia liberal da qual não tinham a mínima experiência.

O desmantelamento do aparelho produtivo soviético deu origem a que os antigos elementos do PCUS ou dos partidos comunistas dos Estados satélites que dirigiam superiormente grandes complexos industriais ou de distribuição de stokes se apropriassem dos mesmos e formassem verdadeiros impérios pessoais, passando rapidamente de socialistas convictos a capitalistas ambiciosos; atrás deles vieram outros empreendedores ‒ os oligarcas ‒ que, de formas lícitas de misturas com as ilícitas, arranjaram fortunas fabulosas, vindo a poder colocar-se perante os políticos ‒ oportunistas ou não ‒ em posições de força por recurso à corrupção. Pode dizer-se que, da queda da URSS, nasceu uma nova forma de capitalismo e uma nova forma de gerir o poder político tão ou mais corrupta do que todas as que a história do Ocidente nos conta. Este quadro traçado a largas e grossas linhas, creio, aplica-se a todos os Estados ditos socialistas antes de 1991.

 

A par desta imensa confusão, em abono da mais elementar verdade, houve Estados cuja população receou a possibilidade de se gerar no Kremlin uma nova onda que levasse a Rússia a procurar, para sua própria defesa, por um lado, e, por outro, por força da sua geopolítica, enquanto território continental e potência terrestre, a reocupação desses países. É que, como consequência da geografia russa, a defesa eficaz das suas fronteiras passa ‒ do mesmo modo que acontece com todos os Estados, mas mais em evidência, porque maior, com os EUA ‒ pela existência de territórios ou bases avançadas que coloquem o potencial inimigo cada vez mais longe da linha demarcadora do espaço nacional. Trata-se de um princípio tão velho como a guerra entre povos distintos: entre a minha casa e o meu inimigo devem estar várias casas de vizinhos meus amigos, que sofrem primeiro o embate da invasão, de forma a que, no meu lar, não haja que erguer trincheiras para me defender, fazendo que a vida decorra na maior tranquilidade possível. É estratégia pura!

Pois bem, nos sete anos que se seguiram ao desfazer da URSS, por conveniência dos Estados e, em simultâneo, por conveniência da OTAN, esta aliança captou para o seu círculo uma série de países que haviam sido satélites da já morta e enterrada União Soviética. Este movimento colocou as forças da Aliança muito mais próximas das fronteiras russas, facto que vulnerabilizou aquele Estado e deu supremacia ao Ocidente.

Alargamento da OTAN.webp

Ou seja, nunca se procurou captar por completo para a área do liberalismo ocidental a nova Rússia, porque prevaleceu sempre a desconfiança geopolítica sobre a potência terrestre e os seus intentos geoestratégicos de alcançar o domínio dos mares. Foi um erro crasso, na minha opinião. Continuou-se a ver a Rússia como uma potência incapaz de ser amiga e, não o sendo, é uma potencial inimiga.

Mas só vendo a Rússia como fonte de conflito é que se podia manter a OTAN, dado que o Pacto de Varsóvia, enquanto aliança defensiva, havia-se desfeito em espuma. Assim, a velha Aliança Atlântica passou a ser um verdadeiro instrumento militar da política externa e global dos EUA e, ao mesmo tempo, o grande chapéu-de-chuva que cobria a segurança da Europa, em especial da UE, evitando-lhe gastos de maior com a segurança e a defesa.

A verdade é que esta posição dos Estados europeus interessava aos EUA, tal como nos disse, em 2005, Robert J. Lieber, na obra A Era Americana, ao afirmar taxativamente aquilo que veio a tornar-se uma realidade nos anos que se seguiram: «(…), quer a primazia quer o envolvimento activo dos EUA são essenciais se quisermos cooperar com terceiros nos próximos anos para construir uma ordem global mais estável, menos perigosa e mais benigna (…) a América não pode esperar pelo consentimento dos outros quando é necessário agir para defender a nossa segurança nacional» (p. 19).

Traduzindo este pensamento, temos que a América pode e deve tornar-se num elemento perturbador da ordem internacional quando, assim procedendo, estiver a defender os seus interesses nacionais.

Esta atitude remete-nos para dois sentidos: um, para o alargamento da OTAN como trampolim dos interesses nacionais americanos; outro, para a actual guerra russo-ucraniana como forma de, confrontando a Rússia através da Ucrânia, consolidar os seus interesses nacionais. E o resultado está à vista: usando de uma estratégia indirecta, põe em risco imediato os aliados europeus da OTAN, porque considera mais importantes os objectivos americanos do que os naturais receios da Rússia. Tudo isto em nome da ordem global ditada pelo Pentágono e pela Casa Branca.

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