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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

01.12.22

A minha professora Dorinda


Luís Alves de Fraga

 

Se não fui um bom aluno na chamada, então, instrução primária, creio que o devo aos professores que tive até à quarta classe (actual 4.º ano). Claro que não gostava de estudar e fazer os trabalhos da escola, porque sentia mais desejo de brincar com soldadinhos de chumbo do que de me dedicar ao árduo esforço de fazer contas, cópias, composições e de estudar pelos livros que eram, mesmo para a época, uma seca tremenda comparados com os manuais de agora que até apetece folhear e ler.

Verdade seja que comecei a 1.ª classe com um professor (o Dionísio, director da escola oficial n.º 68, na rua da Penha de França) e, na 2.ª classe, passei para as mãos da professora Dorinda. Aí foi uma desgraça! Vale a pena recordar.

 

Creio que nasci já com uma propensão natural para ser lógico, que se tornou quase defeito graças ao meu pai que não deixava passar um argumento que não fosse eivado de lógica. Ora a minha aversão primária pela Aritmética, como se dizia na época, vem de nunca me terem explicado a coisa mais simples deste mundo: só há duas operações numéricas básicas: a soma e a subtracção, pois a multiplicação não é mais do que uma soma feita de outra maneira e a divisão não passa de uma outra forma de fazer subtracções. Se me ensinassem assim eu teria percebido que 2x3 era exactamente o mesmo que somar três vezes o algarismo 2 ou se me tivessem dito que 8:2 era o mesmo que subtrair de um todo de 8 laranjas uma parte igual para a entregar a outra pessoa, por exemplo. Mas, ao contrário, o que me impuseram foi que soubesse a tabuada de somar e a de multiplicar completamente memorizada. Aquilo era uma abstracção para mim, que com oito anos já sabia recitar poesias, algumas das quais bastante longas (Um dia numerosa cavalgada/apeia-se ao portão/limpa-se da poeira/sobe a escada e entra no salão, etc., da obra “D. Jaime” de Tomás Ribeiro, tal como sabia o “Juramento do árabe”, de Gonçalves Crespo, e mais, muitas mais)… Mas eram palavras que faziam sentido, que eram lógicas e contavam uma estória bonita; agora, 2x1=2/ 2x2=4 ou 1+1=2 e 1+2=3, qual era a lógica prática de tudo isto: umas reguadas, ou umas “ponteiradas” no alto da tola, quando a lengalenga encravava ou estava mesmo errada. E é aqui que entra a Dorinda…

 

Passei da 2.ª para a 3.ª classe quase tão analfabeto como da 1.ª para a 2.ª. Lia, porque gostava, mas mais do que isso, está quieto ou mau! Escrever eram erros em barda, fazer contas era uma impossibilidade como subir ao Monte Everest.

É claro que a 3.ª classe foi em quase tudo igual à 2.ª, embora a professora tivesse dado mais atenção aos alunos, mas eu que estava sentado lá para o fundo da sala de aula passava despercebido e não era chamado nem à leitura nem ao quadro para me iniciar na Geografia ou provar a minha incapacidade para as contas. Estava para ali, como uma Maria vai com as outras. Aprendia o que podia e calhava e algo mais com a minha santa mãe que, em casa lá me punha a trabalhar e fazia-me perguntas. Como eu era fraco para a Aritmética, ela fazia queixas ao meu pai na esperança de me dar umas explicações depois do jantar. Está visto e sabido, depois da refeição de comida, porque o meu pai não tinha paciência de espécie alguma para ensinar, havia uma sessão de calduços que por algumas vezes me levaram a partir a velha ardósia com a testa… e nem mesmo assim me entravam o raio dos números na cabeça.

No final da 3.ª classe havia exame com todo o rigor e recebíamos um diploma (já não sei onde ele pára). Devo ter passado com uma baixa classificação, porque fui arbitrariamente transferido de escola, para a 127, que ficava lá para o fundo da Penha de França um pouco mais à frente daquilo que é hoje o Monte Agudo e que, por essa altura, andava a ser construído. Passei para as mãos do professor Dias Agudo, que, parece, era um excelente pedagogo. Aprendi mais qualquer coisa, especialmente a ler e a escrever com erros ortográficos à mistura.

 

Quando chegou o momento de fazer o exame da 4.ª classe, o meu pai foi à escola (coisa que nenhum dos meus progenitores fazia) declarou ao meu mestre que não me propusesse a exame, pois para desgraça já chegava o estado em que eu estava. Ia repetir a 4.º classe, na esperança de que melhorasse bastante.

Creio que foi um tremendo terramoto o que aconteceu, por causa do meu pai, nas duas escolas da Penha de França: um pai pedir para o aluno reprovar era coisa que nunca se tinha visto.

 

A verdade é que voltei para a 68, mais próxima de minha casa e fui parar às mãos do professor Amílcar André Vieira, que, na minha opinião de agora, foi, realmente o único mestre-escola que tive na instrução primária. Para, de imediato me colocar na segunda fila de carteiras na sala de aula, deve ter sido a ressaca do terramoto produzido pelo meu pai. A verdade é que não me deixava pôr o pé em ramo verde e eu aprendi num só ano tudo aquilo que devia ter aprendido em quatro.

Fiz o exame da 4.ª classe e saí aprovado com distinção. Nos exames ao liceu e ao, então chamado, ciclo preparatório obtive iguais distinções que antes andavam bastante arredadas de mim. Entrei no ciclo e a verdade é que me comecei a distinguir de entre os alunos da minha turma. As classificações eram boas e, como na disciplina de Língua Portuguesa me comecei a fazer notado, porque o professor era o director da escola Nuno Gonçalves, fui por ele nomeado director do jornal de parede que a turma devia fazer para ser exposto em placard próprio à vista de toda a gente. Felizmente, este director, o Dr. Francisco Xavier Roberto foi um outro pedagogo que se atravessou na minha vida de estudante, terminada há poucos anos, porque deixei de dar aulas, cruzando-me com mais dois pedagogos, os últimos a terem influência na minha vida: Adriano Moreira e Justino Mendes de Almeida, cuja capacidade de prudência e ponderação me levou a ser capaz de, vindo do meio castrense, me integrar completamente no meio universitário.

 

E tudo começou pela incapacidade da professora Dorinda, para acabar agora, já sentado em frente de um computador, que manejo com alguma facilidade, graças ao facto de ter desistido de fazer manuscritos para optar por esta máquina, em 1989, ano em que comecei a escrever a minha tese, fugindo dos números para me dedicar a um amor, mas que foi sempre a minha paixão escondida, as Ciências Sociais e Humanas.

Perdi anos na minha vida, que poderiam ter sido mais profícuos se não fosse teimoso na escolha primeira da minha vocação castrense, toda ela feita na base das Ciências numéricas e contáveis. Perdi, mas ganhei outro lastro que me faz navegar em muitas águas.