A minha esquadra naval
Num tempo em que os jovenzinhos e os pais reclamam por não terem isto e aquilo, por não lograrem dar resposta a esta ou aquela exigência, os meus olhos passaram por cima de velhas recordações da minha infância, que o cuidado, a atenção e o carinho das minhas companheiras de vida preservaram de modo a que, ainda agora, as possa ter e fotografar, pois estão expostas à frente dos livros da minha, hoje, magra estante. Vamos aos factos?
Era eu garotinho, de dez ou onze anos, ‒ acabara a 2.ª Guerra Mundial há dois lustros ‒, passava junto a uma papelaria, tabacaria e venda de brinquedos quase todos os dias e lá estavam expostos dois navios de guerra cinzentos, feitos de madeira, com peças de artilharia, mesmo à espera de mim, para os levar para casa e travar, em cima da mesa de jantar, grandes batalhas navais, que a minha imaginação pródiga me facultava sempre que assim o desejasse.
Eles esperavam por mim e eu por eles, porque, os meus pais não cediam perante a simples sugestão de compra de um dos vasos de guerra ‒ Brinca com o que tens, porque o dinheiro não era gastar assim ‒ dizia-me a minha mãe com tom carinhoso, porém decidido. E eu calava-me e sonhava com os navios!
Ora, porque já era suficientemente habilidoso ‒ meu Deus, dizer uma coisa desta de mim! ‒ para manejar uma boa faca, um martelo, pregos, aguarelas e pincéis, pensei em superar a falta de dinheiro e fazer a minha esquadra naval. É que a imaginação de uma criança dotada desse predicado é capaz de ver aquilo que jamais passa pela cabeça de um adulto com os pés no chão…
Se o pensei, de imediato passei à acção.
E fiz a minha esquadra com três navios: um cruzador bem artilhado, tanto para ataques de superfície como aéreos, e dois patrulhas menos dotados de poder de fogo, mas, mesmo assim, suficiente para proteger, em escolta, o navio almirante. E não me faltou a guarnição… marinheiros de chumbo, um pouco maltratados, mas tal devia-se a muitas refregas por onde haviam andado.
Guardei estas porcarias porque me lembram um tempo em que, carecido de dinheiro, fui capaz de ser feliz.
Por onde anda a imaginação das crianças de agora? E a capacidade de suplantar faltas? E os pais destas crianças não percebem que é através de pequenos sacrifícios que se treina a possibilidade de enfrentar grandes imolações?
Deixo para cada um pensar o que quiser.


