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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

07.04.19

A mentira e a efabulação


Luís Alves de Fraga

 

Há tempos, alguém me colocou a questão de o fabulador ser um mentiroso e vice-versa.

 

Bom, “tecnicamente” um e outro são a mesma coisa, todavia, na concepção corrente há grandes diferenças: o mentiroso é aquele que diz mentiras e o fabulador é um criador de histórias – como se diz, agora, “estórias”, indo buscar a diferença à língua inglesa.

 

O mentiroso, em geral, mente como forma defensiva ou com intenção de alcançar um qualquer proveito com a mentira. Estão entre os grandes mentirosos os políticos – raramente fazem afirmações com o declarado intuito de as cumprir – que mentem, dizem eles, por razões patrióticas ou para não gerarem pânico ou por motivos “estratégicos”. Não são únicos, como grandes embusteiros. Há os jornalistas a deturpar o que é vero para servirem interesses obscuros; de certa maneira, os advogados também são capazes de mentir para provarem uma “verdade” capaz de pôr a recato da justiça os seus constituintes.

O impostor tem uma mente e imaginação muito elásticas: a realidade assume formas variadas consoante as circunstâncias, os momentos e os seus objectivos.

 

O fabulador – o nosso contador de estórias – esse pobre coitado pode assumir o papel de pai, mãe, avó ou avô, nas circunstâncias mais corriqueiras, para entreter as crianças, inebriando-as com o relato de episódios fantásticos, descrições de nos deixar com a respiração suspensa. Está a mentir, claro que está! Mas a sua impostura envolve ternura e estimula a cândida imaginação das crianças.

Este é o fabulador “doméstico”, que, na ausência de ideação, se socorre de um livro e lê fantasias para os mais pequenos ficarem tranquilos ou adormecerem embalados em nuvens de palavras criadoras de sonhos plácidos distantes das realidades ásperas da vida, que um dia terão oportunidade de conhecer.

 

Há, contudo, o “grande” fabulador; aquele que conta estórias sob a forma escrita e se designa por ficcionista. É o autor de romances ou de livros infantis; é aquele que nos distrai e nos leva para o “seu” mundo fantástico. É aquele que cria personagens e enredos para nos obrigar a pensar, para nos libertar do nosso quotidiano, às vezes, tormentoso. É o “grande mentiroso”, que diz mentiras consentidas, que lhe dão prazer e nos agradam sobremaneira.

 

Ser fabulador é uma graça de Deus ou da Natureza; ser mentiroso é uma tentação de Lúcifer ou um aleijão da Criação.

Quando se nasce com a sublime capacidade do domínio da palavra escrita é um desperdício se não se desenvolve a possibilidade de efabular.

 

Tomaste nota do que te disse, meu Querido “Alguém”?