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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

21.10.22

A inflação


Luís Alves de Fraga

 

Como todos nós estamos a saber, a inflação é a subida dos preços dos produtos e tem a sua origem, normalmente, no aumento dos preços das matérias-primas que integram os produtos acabados.

Mas é só isto, a inflação? Não. Tecnicamente a inflação resulta de um aumento da procura no mercado e um abaixamento da oferta; este desencontro provoca a subida dos preços, descontrolando o natural equilíbrio entre uma coisa e outra.

 

O remédio para suster a inflação é actuar sobre a procura e não sobre a oferta, pois agir sobre esta última é, de alguma maneira, contrariar a “onda” de aumentos de preços que encontra a sua razão de ser na produção comercial (se um produto transversal à formação de quase todos os preços rareia no mercado, provoca um aumento de custo de quase todos os produtos ‒ os que não são afectados, por ganância ou “cópia”, elevam-se também ‒, ora qual o processo de actuar para fazer baixar os preços? Só injectando o produto em falta no mercado o que raramente é possível ou, se possível, ele vai surgir a preços mais elevados ‒ continua a funcionar a lei da oferta e da procura ‒, levando ao disparo dos preços em geral). Assim, tem de se actuar sobre o lado da procura, reduzindo-a, por exemplo, pois, obrigará a um abaixamento dos custos na oferta (se há menos procura, a oferta tende a baixar os preços até chegar ao ponto de equilíbrio). Esta solução, teoricamente, é perfeita, mas, imaginemos que a praticamos sobre os produtos básicos de alimentação… matamos à fome as pessoas? Então esta solução só funciona naquilo que se pode chamar consumo supérfluo ou desnecessário. Esta medida resulta muito bem quando os produtos responsáveis pela inflação dos preços são maioritariamente importados, pois basta o Estado subir brutalmente as taxas aduaneiras e o exportador deixa de encaminhar a sua oferta para o mercado, gerando uma quase ausência de procura (é por isso que há contrabando), mas esta medida não é aplicável a um mercado comum, aberto e livre (caso da União Europeia), porque os Estados abdicaram de uma parte da sua soberania em nome do bem-estar das suas populações em situação de normal funcionamento do mercado.

 

A solução que resta é, continuando a actuar no lado da procura, aumentar-lhe o poder de compra. Isto faz-se de duas maneiras: ou se aumentam os salários significativamente ou se põe mais moeda em circulação, medida que permite, também, aumentar temporariamente a capacidade aquisitiva. Contudo, qualquer destas duas medidas tem graves consequências e são, pelo menos três: a primeira, as pequenas e médias empresas entram rapidamente em falência, gerando desemprego (este pode ser combatido com medidas adoptadas pelo Estado ou pelas autarquias, que passam pela oferta de trabalho, mesmo que seja para não fazer nada, ou subsídios aos reformados, desempregados e incapacitados para permitir que o mercado funcione); a segunda passa por o Estado ter de contrair divida externa para ter dinheiro para proceder à solução anterior, podendo levá-lo a uma situação de falência ou bancarrota; e, a terceira, é a descredibilização internacional do valor da moeda.

 

Traçado, em grandes linhas, o quadro resultante da inflação, falta-nos, tão-só, avaliar a situação prática de Portugal enquanto membro da União Europeia (e o que se disser para nós é válido para todos os outros Estados).

Primeiro, os Estados na UE, quando integrados na zona euro, não podem criar moeda a seu bel-prazer; segundo, esses mesmos Estados estão obrigados a não ultrapassar um certo nível de endividamento externo; terceiro, não podem fechar o mercado aos produtos dos outros membros. Assim, a inflação em cada membro da UE, e em especial os da zona onde circula a moeda única, está dependente das decisões conjuntas dos restantes Estados.

Ora, porque Portugal tem uma dívida externa imensa, não se pode ou não se deve ampliá-la mais, logo a ajuda tem de vir de Bruxelas sob a forma de subsídios a fundo perdido ou a juros muito, muito baixos, sendo o Banco Central Europeu a tomar essa decisão… mas não a vai tomar. Assim, tem de ser fora da área da procura que se tem de encontrar a solução ou seja, na área da oferta e a que mais falta faz é a das fontes de produção energética.

Percebem os leitores que a única estratégia viável no passado, no presente e no futuro é a de a UE não tomar partido nem contra nem a favor dos conflitos que envolvam os Estados de quem depende, em termos de oferta ou de procura, o mercado interno e externo? Foi a falta de uma estratégia que nos colocasse fora da órbita dos conflitos entre os EUA e a Rússia que nos colocou na situação actual. Mas, para tornar possível essa neutralidade a UE tem de ter uma política externa, uma diplomacia e uma política de defesa únicas, do mesmo modo que tem um só mercado comercial, que se regula por regras comuns a todos.

Vamos esperar pela clarividência dos tecnocratas de Bruxelas ou deixamos desfazer a União Europeia?