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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

06.03.19

A História das pequenas coisas


Luís Alves de Fraga

 

É vulgar ler-se ou, ainda, ouvirem contar-se histórias de episódios repressivos ocorridos no tempo da ditadura. São pequenos “azulejos” de um “mosaico” muito amplo sobre o que foi o silenciamento de um povo e de uma revolta. É bom que se saibam pormenores dessa luta, às vezes, tão generalizada, que quase a torna banal por lhe retirar a carga de perigosidade que teve.

Para vos desassossegar as consciências, deixo-vos, desde já, uma pergunta:

– Não houve (não há) repressão política nesta democracia em que vivemos?

 

Vou-vos contar um episódio pessoal demonstrativo de como se pode exercer “repressão democrática” para obrigar a “acertar o passo” a todos os que vão com ele “trocado” em relação ao “politicamente correcto”.

 

Há quarenta e um anos, estava expurgada a Força Aérea dos oficiais de “esquerda”, que mais destaque haviam tido no processo revolucionário vivido entre Abril de 1974 e Novembro de 1975. Tinham sido levados a Conselho Superior de Disciplina e passados à reserva ou reforma compulsiva. Na minha especialidade – Administração Aeronáutica – essa “limpeza” foi extensiva e quase completa.

 

Entre o meio do ano de 1978 e começo de 1979, nós, os que ficámos ao serviço sem sermos incomodados – por termos dado menos nas vistas e não nos termos exposto desnecessariamente – resolvemos levar a cabo, todos os meses, jantares de confraternização incluindo os oficiais de esquerda “saneados” por esse método com cobertura legal. Os repastos foram sendo um êxito, porque conseguíamos sentar à mesma mesa gente com ideias bem definidas com gente que, por medo, não manifestavam nada sobre política.

Tínhamos dois objectivos em mente: afrontar a hierarquia e provar que os “saneados” não “comiam” os que estavam na situação de activos. Demonstrávamos a injustiça do “julgamento”.

 

Em dado momento, lá para o fim do ano de 1978, chegou, do Estado-Maior da Força Aérea, a ordem para ser aberto um processo de averiguações aos oficiais organizadores dos jantares. Éramos cinco ou seis, alguns deles, sem qualquer tipo de conotação política.

Como seria de esperar, o auto foi inconclusivo, porque quem estava no “segredo dos objectivos” não os disse e ficámo-nos todos pela afirmação de que se tratava de repastos de convívio e camaradagem.

 

Na falta de matéria punitiva, a hierarquia optou por “castigar-nos” de uma forma singular: transferir-nos para unidades distantes de Lisboa, desorganizando o mais possível a vida familiar de cada um.

Os menos “culpados” foram colocados na Ota e em Tancos; aquele que julgaram ser o “chefão” máximo do movimento foi parar ao Açores – ilha Terceira – e eu fui colocado em Beja.

 

Há quarenta anos conheci a melhor Base Aérea de toda a minha carreira militar. Por lá estive quase um ano. Voltei para ser colocado no Montijo, como major graduado, num cargo que até então não era desempenhado por um oficial da minha especialidade. Nesse, sim, a hierarquia conseguiu engendrar motivo para me aplicar três dias de prisão disciplinar…

É uma história que, mais lá para diante, hei-de tornar pública.

 

Como se vê, a democracia é muito mais sofisticada, no que toca à repressão, do que as brutais ditaduras.

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