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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

27.08.19

A guerra em África: Tropas especiais africanas


Luís Alves de Fraga

 

Já me referi à necessidade sentida pelas autoridades militares portuguesas, no começo da década de 70 do século passado, por falta de jovens em idade de cumprirem serviço militar obrigatório, na metrópole, de recrutarem indígenas das colónias em estado de guerra. Mas, torna-se importante recordar um outro tipo de recrutamento de soldados autóctones: os das chamadas tropas especiais.

 

O objectivo, ao proceder a este tipo de recrutamento, era o de preparar soldados africanos com “habilidades castrenses” iguais ou, até, superiores às tropas especiais ‒ comandos, fuzileiros e pára-quedistas ‒ metropolitanas. As soluções foram diferentes nas diferentes colónias.

 

Em Angola, começou por se agrupar autonomamente os “gendarmes” refugiados do Katanga; tinham enquadramento próprio e actuavam à ordem do comando militar do Leste, coordenados pelo comando-chefe. Eram designados, nos corredores do estado-maior, em Luanda, por “Fiéis”. Operavam em reforço de unidades militares portuguesas, especialmente em operações para lá das fronteiras, atacando as bases inimigas.

Além destes, criou-se uma outra tropa auxiliar com os refugiados da Zâmbia, formando uma companhia cuja área de actuação se limitava, também, ao Leste, em especial na região do Cazombo. Eram designados por “Leais”.

Existiram, também, as milícias armadas resultantes da confiança tida em antigos militares, que haviam servido nas fileiras do Exército. Nelas serviram alguns “reconvertidos” à causa portuguesa, depois de terem desertado de um dos movimentos de guerrilha. Eram usados como força de autodefesa dos aldeamentos ou como guias ou pisteiros nas colunas militares (Maria Manuela Cruzeiro, “Pezarat Correia: Do Lado Certo da História”; 125-127).

A estes, que actuavam sob controlo militar, devem juntar-se os “Flechas”, inicialmente constituídos por indígenas da etnia khoisan, também designados por bosquímanos, criados em 1967 pela PIDE, formando uma força privada para actuação comandada por aquela polícia política.

 

Na Guiné, de maneira bastante controversa, formaram-se, sob as ordens do general Spínola, tropas negras com características de elite, integrando comandos e fuzileiros, capitaneados por graduados, também eles, negros. Serviram para intervir, em igualdade de condições, às ordens do comando-chefe, onde e sempre que fosse necessário. Em especial os comandos, tornaram-se legendários dada a eficácia que colocavam no combate. Entre eles destacaram-se alguns, ganhando o estatuto de heróis nacionais portugueses. Foram utilizados na célebre “Operação Mar Verde”, invadindo a Guiné-Conakri, usando armas não regulares nas Forças Armadas portuguesas. Até ao final do conflito foram temidos entre os guerrilheiros do PAIGC.

 

Em Moçambique, no início dos anos 70, formaram-se, com estrutura regular, os Grupos Especiais (GE), com sede no Dondo, perto da cidade da Beira. Eram unidades enquadradas por instrutores europeus, com formação específica, fazendo desses soldados uma tropa capaz de completar ou colmatar a acção dos comandos europeus.

Constou, na altura, que poderiam vir a ser o núcleo de formação do Exército moçambicano, se o processo político avançasse para uma independência consentida ou imposta pela comunidade europeia ao Governo de Lisboa. Admito, sem qualquer prova palpável, que o facto de a sede do aquartelamento ter sido no Dondo não terá resultado de um acaso, mas da proximidade à residência do engenheiro Jorge Jardim, figura controversa da política colonial sobre quem me debruçarei em apontamento próximo.

Depois de formados os GE vieram a constituir-se os Grupos Especiais Pára-quedistas (GEP), também com sede no aquartelamento do Dondo, beneficiando do enquadramento de graduados pára-quedistas, quase todos provenientes do BCP-31. O recrutamento destes instrutores fazia-se entre os furriéis milicianos e as praças daquele batalhão, que, ao assumirem funções nos GEP, passavam a ser graduados, respectivamente, em alferes. O resto do enquadramento era feito por graduados europeus.

 

A “africanização” dos militares portugueses em combate contra a guerrilha nos três teatros de operações constituiu, mais uma vez, uma péssima opção do Governo fascista, aceite, quase sem reticências, pelos mais elevados escalões de comando das Forças Armadas, por dois motivos: admissão da eternização da guerra com a possível vitória da estratégia defendida pelos colonialistas e inconsciência das consequências se se verificasse uma independência negra controlada pelos partidos insurgentes.

 

Na verdade, o envolvimento massivo de africanos na guerra colonial gerou ‒ sem prévio estudo dos desfechos ‒ a estrutura de uma guerra civil em substituição de uma guerra de secessão: já não era um território que se queria autonomizar, mas grupos sociais desse território que se combatiam em defesa de causas distintas e opostas; a vitória de uma delas iria impor pesadas sanções à vencida. Mas, mais grave ainda, foi a ausência de medidas práticas, que deveriam ter sido assumidas pelo Governo democrático português, ainda antes das independências, assegurando protecção aos militares africanos que haviam servido nas fileiras das Forças Armadas de Portugal. Só a alguns graduados foi dada a possibilidade de se refugiarem na metrópole; muitos ficaram nos seus novos países e foram perseguidos e mortos, quando lhes reconheceram responsabilidades no combate à guerrilha ou quando não foram capazes de dar o dito por não dito e mostrarem-se fiéis perante as novas autoridades; pediu-se-lhes a negação de todos os valores em que tinham acreditado ou lhes haviam sido impostos a troco do direito a viverem.

Mais um grande e grave estilhaço provocado pelo regime colonial e fascista na guerra em África.

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