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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

16.07.19

A guerra em África: transportes militares


Luís Alves de Fraga

 

A distância de Portugal às principais colónias de África determinou uma longa linha de apoio logístico cara e demorada. Os principais meios de ligação teriam de ser ‒ e foram ‒ os navios e as aeronaves.

 

A maior parte das marchas para os teatros de operações fizeram-se por via marítima, em navios fretados, transformados em transportes de tropas. Ficaram no imaginário de muitos milhares de jovens militares alguns nomes: “Vera Cruz”, “Pátria”, “Império”, “Niassa”. Este último, talvez, o mais emblemático de todos.

 

Os embarques tinham lugar, geralmente, no cais da Rocha de Conde de Óbidos, onde um forte contingente policial mantinha os familiares à distância dos que iam partir. Eram actos de uma grande força emocional. Gente do povo, vinda de longe, vestindo modestamente ‒ pais, namoradas, esposas, filhos pequenos, às vezes ‒, chorava silenciosamente ou gemia a sua dor, saudade e aflição. A bordo, junto à amurada, pendurados em tudo o que lhes dava altura, os jovens militares acenavam com os quépi, com boinas, com lenços, quase sempre sem grandes alaridos nem grandes lágrimas, porque a aventura esperava-os na inocência do que era a guerra e as vivências em África. Muitos nunca tinham visto o mar, nem posto o pé num navio.

 

Para os soldados, esperavam-nos os porões transformados em grandes casernas, sem quase iluminação, nem ar condicionado, cheios de cheiros ‒ maus e raramente bons ‒, com limitadas opções de higiene. Gerava-se a bordo dos ronceiros navios uma rotina diária: respirar o ar do mar e sentir aumentar o calor húmido, quanto mais se navegava para Sul.

Para os sargentos e oficiais ficavam reservados os camarotes ‒ muitas vezes sobrelotados ‒ da terceira, segunda e primeira classe.

 

E a viagem fazia-se, deixando para trás os portos nacionais, sem se chegar à costa, porque todos os Estados africanos do litoral haviam cortado relações diplomáticas com Portugal. Depois da ilha da Madeira só a ilha de São Tomé; Bissau e Luanda para deixar a grande maioria dos militares. Na restante costa de Angola, se aportassem, era lá para Sul, no Lobito ou Moçâmedes, para desembarcarem alguns felizardos. Para Moçambique seguia o resto, se houvesse resto.

 

No regresso, pôr o pé a bordo era já estar salvo e a salvo de quase todos os perigos. Era estar quase em casa. Faltava o quase. Esse chegava no dia do desembarque no cais da Rocha de Conde de Óbidos. Era o momento dos abraços e do retorno à terra e às velhas rotinas de outrora que, muitas, muitas vezes, já não eram iguais, nem podiam ser: para alguns, a guerra tinha-lhes dado “volta ao miolo” e as noites e o sono eram para reviver medos, tormentos, convívios com a morte e os com os destroços humanos deixados no mato. Para outros ‒ os afortunados ‒ era regressar ao passado e contar histórias deles ou ouvidas a camaradas e tomadas, por roubo, como suas ou inventadas, partindo de relatos alheios, passados de boca em boca.

 

África e a guerra foi uma fonte inesgotável de tudo o que cada um quis que fosse à vontade da sua imaginação. Para alguns, os estropiados ‒ física e mentalmente ‒, foi o começo de uma viagem pela vida onde já só havia pouca ou nenhuma luz. Os “seus” furriéis e os “seus” alferes tinham ido à vida deles e haviam-nos abandonado num meio estranho onde eram olhados de maneira estranha. E nem apoios financeiros e sanitários tinham. A guerra matara-lhes a juventude. Esses, os fisicamente estropiados, regressavam de avião, aviões militares transformados em pequenos hospitais acompanhados de uma ou duas enfermeiras pára-quedistas, militares por fora, mas mulheres-mães ou mulheres-namoradas, por dentro. Por dentro de cada um, como cada um as sentia.

 

A Força Aérea contava com velhos aviões de transporte ‒ DC4 e DC6 ‒, que nas longas viagens se avariavam com frequência, ficando paralisados em São Tomé, em Luanda e, algumas vezes, na ilha do Sal. Mal serviam para transportar os militares daquele ramo das forças armadas e, na volta, os mutilados e doentes graves.

Foi em 1971 ‒ sempre por intermédio de “jogos pouco claros” feitos pela TAP ‒ que a Força Aérea foi dotada com dois Boing 707, os quais, até ao fim, se transformaram no meio de transporte rápido para substituições individuais tanto de pessoal da Armada como do Exército e, naturalmente, da Força Aérea. Essas aeronaves novas chegaram, em 1975, a ir a Timor, dando a volta ao mundo.

 

Os navios mercantes, transformados em transportes de tropas, foram, no entanto, durante treze anos, a espinha dorsal do esforço logístico para colocar em África soldados e material de guerra. O “Niassa” foi o último navio a trazer as últimas tropas de Angola e mais o último alto comissário ‒ o almirante Leonel Cardoso ‒ do “império”. Chegaram a Lisboa no dia 23 de Novembro de 1975. Os transportes militares para a guerra acabaram nesse dia.