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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

19.08.19

A guerra em África: Stress pós-traumático


Luís Alves de Fraga

 

Está a ser aceite, entre nós, a nova designação para este transtorno psicológico ‒ perturbação de stress pós-traumático (PSPT) ‒ introduzida na linguagem científica nos EUA, depois do estudo e análise das consequências em veteranos da guerra do Vietnam.

É evidente que este distúrbio sempre existiu, mas só há poucas dezenas de anos se lhe deu importância efectiva. Recordo-me, quando era criança, de se apontarem como “gaseados” os antigos militares combatentes na Grande Guerra, em França. Era gente que, do nada, começava a gritar, se exaltava sem razão para tal, aparentava um excessivo nervosismo motor ou descontrolo emocional. As mulheres diziam, com ar entristecido: «São os gases da guerra!», e tudo ficava por aí.

Muitos anos depois, em Portugal, esse fenómeno voltou a ser um tormento social e sanitário, quando começaram a regressar os grandes contingentes de militares vindos das frentes de combate de África.

 

Não quero estabelecer qualquer tipo de doutrina quanto a este tipo de problema, porque não tenho competência científica para o fazer nem experiência de convívio com ele, todavia, julgo poder usar do meu conhecimento empírico para o explicar.

Vou tentar.

 

Tanto quanto me é dado saber, são muito mais raros os casos de PSPT entre graduados dos quadros permanentes do que entre militares no cumprimento do serviço militar obrigatório.

Creio poder aclarar este facto recorrendo à lógica, sem, contudo, deixar de admitir a existência de excepções.

 

O tempo de preparação de um recruta para se conseguir a transformação comportamental e psíquica de civil em soldado era, por longa que fosse ‒ e não ia além de cinco ou seis meses ‒, sempre muito pouco. O apresto do soldado para a vida num teatro de operações passava por o ensinar a pouco mais do que defender-se, obedecer às ordens superiores, manter a disciplina, utilizar de modo correcto o material próprio da especialidade conseguida e enfrentar a fome e a sede. Em qualquer caso ‒ mesmo tratando-se de um graduado do quadro permanente ‒ há sempre o baptismo de fogo, no qual se atestam as capacidades individuais, porque o medo do perigo é inevitável, embora dominável.

Mas não era em consequência da primeira experiência de combate que a fractura psicológica se manifestava; surgia, quando surgia, da sequência da pressão sentida, continuadamente, perante a situação de risco e pela visão dos estragos que o contacto com o inimigo ou com as armas por ele disseminadas no terreno ‒ minas anticarro ou antipessoal ‒ provocava. Surgia quando, repetidamente, se via um camarada esfacelado, morto a tiro ou vítima de desastre automóvel (acidentes ou ataques). Surgia depois de meses fechado num quartel precário, no mato, sujeito a bombardeamentos inimigos. Surgia depois de se ter disparado o primeiro tiro e matado o primeiro ser humano ou depois de ter matado vários inimigos ou sacrificado populações inocentes. Mas surgia, especialmente, meses depois dos acontecimentos traumáticos, depois do regresso a Portugal, à vida civil, de noite, quando os pesadelos atacam com lembranças macabras, quando fazem reviver aquilo que a memória quer esquecer. Surgia face à primeira contrariedade, ao primeiro insulto, ao primeiro estrondo inesperado. Acima de tudo, surgia quando se ambicionava uma noite tranquila e ela era de insónia e tensão e medo e recusa de paz e desejo de sofrimento.

 

Mesmo os graduados mais experientes, veteranos de guerra, não confessam, mas são assaltados pelos seus receios, os seus sonhos, os seus fantasmas; foram, contudo, treinados para ultrapassar os traumas e vencê-los.

 

PSPT é um mal que ainda persiste entre alguns ‒ os restantes ‒ combatentes da guerra de África. Quase não têm apoio por parte do Estado. Na Liga dos Combatentes recebem alguma ajuda psicológica. São estilhaços desse conflito onde se foi obrigado a participar para matar ou ser morto ou ser ferido. E, muitos deles, sem cicatrizes no corpo têm-nas na psique.