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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

05.09.19

A guerra em África: Spínola e Kaúlza


Luís Alves de Fraga

 

A dialéctica da guerra define, em relação aos generais que a conduzem, ao longo do tempo, uma de duas situações: ou evidencia os mais competentes ou os mais incompetentes. Isto acontece, porque a escalada estratégica “complica” o modo de conduzir as operações e a escolha política dos comandantes pode recair sobre os generais mais competentes ou, pelo contrário, sobre os mais subservientes ao poder político e menos competentes do ponto de vista militar.

 

Na guerra colonial, dada a evolução da acção subversiva, os comandantes dos teatros de operações foram sendo escolhidos entre aqueles que pareciam ser os mais aptos para conduzir a acção. A própria duração da guerra permitiu colocar no comando-chefe, nos últimos anos do conflito, oficiais generais que já tinham passado, em postos anteriores, pelo comando operacional em campanha. Foi o caso de Costa Gomes e o de Spínola, mas não o de Kaúlza de Arriaga.

António de Spínola, ainda tenente-coronel, comandou um batalhão em Angola, em pleno mato, ficando, desde então, com a clara noção do que era e como se comportava a guerrilha. Mais do que isso, percebeu as falhas do sistema de apoio logístico às tropas empenhadas na luta. Quando foi nomeado para comandante do teatro de operações na Guiné sabia, com grande precisão, como organizar o seu estado-maior e como orientar as acções de combate.

 

Genericamente pode dividir-se a acção de comando de Spínola, na Guiné, em duas fases distintas: uma, empenhado em quebrar o ímpeto combatente do PAIGC, e, outra, virada para a conquista das populações. Cada uma destas fases corresponde a uma posição diferente perante a política de guerra do governo fascista. Na primeira, o general ainda acreditava na solução militar para o teatro de operações que comandava, dando-lhe, por conseguinte, primazia, admitindo que a manobra e a capacidade interventiva de combate gerariam impasse no desenvolvimento da acção política do PAIGC.

O tempo e a falta de resultados tácticos levaram-no à segunda fase, que passou por, contendo, dentro do possível, a liberdade de acção da guerrilha, utilizar como princípio uma manobra política em tudo semelhante à usada pelo PAIGC: cativar as populações, retirando adesão à causa insurgente. Dito de outra maneira, Spínola e o seu estado-maior, reconhecendo as “razões de queixa” das populações guineenses, “irmanavam-se”, na prática, com o PAIGC.

 

Do ponto de vista estratégico, a acção do comandante-chefe era simplesmente brilhante! Brilhante, porque, por um lado, abria a porta ao diálogo com o PAIGC, e, por outro, anulava quase todos os motivos de existência de conflito, deixando somente de pé um: a independência do território.

Spínola acompanhou esta mudança estratégica de duas modalidades tácticas: uma, encetar conversações com responsáveis políticos da guerrilha, difundindo o mais possível o seu objectivo junto das populações amigas ou não hostis; outra, obter permissão, junto do governo colonialista, para agir politicamente com vista a negociar, ao mais alto nível, com os insurgentes.

A manobra estratégica tornou-se impossível, exactamente, porque este último movimento não colheu apoio junto de Marcello Caetano. O general ficou encurralado. Uma vez mais, prevaleceu a irracionalidade da continuação de uma guerra que já estava desenhada como perdida.

Mas, como o conflito é sempre dialéctico, a resposta do PAIGC não tardou: numa das zonas despovoadas e desguarnecida de tropas, montou uma operação política da mais alta importância estratégica ‒ a única que justificava a continuidade da guerra: com grande espalhafato, em Setembro de 1973, declarou a independência da Guiné diante de convidados internacionais. A manobra de Spínola perdia qualquer sentido e ficava a nu a intransigência do governo colonialista e fascista. Spínola foi substituído no comando-chefe da Guiné em Novembro de 1973. A sua presença já não se justificava. Foi substituído por um general da confiança política do governo, contudo, curiosamente, também sensível a manobras políticas arriscadas. Mas o tempo corria célere e Abril de 1974 estava para breve.

 

No outro extremo dos perfis dos generais condutores da guerra colonial estava Kaúlza de Arriaga, comandante-chefe em Moçambique quase ao mesmo tempo que Spínola na Guiné.

 

Tratava-se de um general engenheiro militar, com o curso de estado-maior, cuja vida castrense foi, quase toda, feita em cargos políticos de muita confiança de Salazar a quem devotava verdadeira veneração. Passou pelo Instituto de Altos Estudos Militares como aluno e como professor. Experiência de guerra e de condução de soldados não tinha, na prática, absolutamente nenhuma. Era um teórico e um “militar político” ou um “político militar”. A sua concepção de guerra subversiva passava pela aprendizagem feita nos livros, sendo, por isso, altamente condicionada pelo pensamento de condução de guerra clássica, sem dar provas evidentes de ter percebido a profunda interligação existente entre acção militar e acção política. Aliás, a sua fixação e adesão à política de defesa intransigente das colónias como parte integrante de Portugal não lhe permitiria ter a elasticidade necessária para conceber uma estratégia pragmática, em especial num teatro de operações onde o inimigo era muito influenciado pelas teses maoístas, de matriz pouco ou nada ortodoxa.

 

No período em que Kaúlza de Arriaga esteve à frente do comando militar em Moçambique tomaram forma segura as obras de construção da barragem de Cabora Bassa. Este empreendimento, dentro da política colonial portuguesa, representou um amplo golpe estratégico no plano internacional, e foi com base no entendimento desse plano que o general centrou a sua acção militar, fazendo-a passar por uma grande ofensiva no Norte de Moçambique ‒ “Operação Nó Górdio” ‒ com vista a eliminar a presença dos guerrilheiros da FRELIMO, de modo a tornar o investimento infraestrutural em um negócio apetecível não só para a Rodésia e para a África do Sul, mas, também para todos os Estados onde pudesse chegar a energia eléctrica gerada. Era uma manobra concertada entre objectivos políticos, económicos e militares.

A rigidez do pensamento clássico deste general de gabinete impediu-o de perceber a flexibilidade da estratégia guerrilheira: desocupar o território onde está semeada a ideia revolucionária e ocupar outros onde a subversão possa gerar frutos, porque a posse do terreno é o menos importante.

 

Foi o que, muito antes da “Operação Nó Górdio”, o comandante Sebastião Marcos Mabote, o estrategista da FRELIMO, preconizou: transferir para outra zona geográfica a acção política e militar. A escolha tinha de recair sobre a barragem de Cabora Bassa, definindo como linha principal de infiltração o eixo Tete-Beira, com expansão para a província da Zambézia. Seria o golpe de misericórdia na manobra militar portuguesa já exausta e sem capacidade de recrutamento de soldados europeus, porque, ao recrutar negros moçambicanos, passava a assegurar a infiltração nas fileiras de mancebos, no mínimo, simpatizantes da FRELIMO.

Assim, aquilo que o general Kaúlza de Arriaga considerou uma acção “brilhante”, porque havia acabado com a subversão regional, no curto e médio prazo, deu mais força à guerrilha, pois empurrou-a para a “nacionalização”, ou seja, para a ampliação geográfica da propaganda para a independência.

 

Através desta síntese, procurei provar que, com bons ou maus generais, a guerra colonial, no final do ano de 1973 ‒ pelo menos, na Guiné e em Moçambique ‒ estava apontada para a derrota militar. Em Angola, por arrastamento e contaminação, a derrota seguir-se-ia, produzindo o caos interno, como se verificou depois.