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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

21.07.19

A guerra em África: PIDE/DGS


Luís Alves de Fraga

 

As ditaduras implantam-se com o consentimento tácito dos povos ‒ demorou tempo até eu perceber que assim é, mas, hoje, tenho a certeza do que afirmo ‒ embora subsistam, ao longo dos anos, apoiadas em mecanismos repressivos, em especial a propaganda, a polícia política e a censura. Foi assim, exactamente, que aconteceu em Portugal. Oliveira Salazar foi o “ponto de apoio” para a “alavanca” fascista; quem lhe deu “força” foi a Igreja Católica, as forças armadas e a pequena burguesia urbana desejosa de ordem nas ruas e travagem da inflação. A propaganda, montada na década de 30 do século passado, gerou, ao ditador, a auréola de “insubstituível” e de “salvador da pátria”. A polícia política teve mão livre para perseguir, encarcerar e conceber provas capazes de tribunais especiais determinarem longas penas de prisão para quem discordasse do sistema. Os não discordantes, pelo silêncio, pela apatia e ou pelo medo, tornaram-se em concordantes. Daí a longevidade da ditadura.

 

Mas, nas colónias, em especial nas do continente africano, o temor de conspiração contra a ditadura era quase nulo. Se algum receio houve, entre 1930 e 1960, foi da hipótese de uma declaração de independência “branca”, contudo, bastante remota, pois os grandes interesses coloniais estavam radicados em Portugal e a fixação de colonos europeus era altamente controlada para evitar estranhos apetites. Assim, a polícia política quase não existia, com actuação digna de qualquer nota, naqueles territórios. No entanto, com a eclosão das primeiras manifestações negras de rebeldia contra a ordem instituída, a PIDE instalou-se e organizou-se em Angola, Moçambique e Guiné.

 

Pode dizer-se, de forma simplista, que a sua actuação se orientou, com a eclosão da guerra, em dois sentidos: controlar as oposições internas contra a política fascista e desenvolver acções de espionagem junto dos movimentos de libertação.

 

A primeira, passou, também, por infiltrar agentes ou informadores junto dos grupos de exilados portugueses no estrangeiro. Para esta actividade terá contado com a ajuda de fugitivos já arrependidos e que passaram a “trabalhar” para a PIDE, relatando o que se congeminava entre os portugueses perseguidos e conspiradores. Um exemplo bem patente e evidente desta forma de agir foi o da movimentação que conduziu ao assassinato do general Humberto Delgado. Note-se que o antigo candidato à Presidência da República era tão ou mais perigoso para a ditadura do que a maioria dos restantes exilados por causa da sua espontaneidade e da falta de alinhamento com as sugestões do PCP, muito cauteloso quanto ao empenhamento de militantes seus em golpes sem grande margem de sucesso.

 

A segunda actividade da PIDE passou por infiltrar, próximo das cúpulas dos movimentos de libertação, informadores seus, o mesmo acontecendo no terreno, junto de grupos operacionais.

Em boa verdade, a polícia política trabalhou, em África, com agentes ou informadores autóctones que aderiram à propaganda do fascismo e ficaram imunes à acção das ideologias dos movimentos libertadores, prova evidente da tese de que a luta pela independência era política, esbatendo-se os contornos racistas e tribalistas da maioria dos defensores da autodeterminação dos povos colonizados.

 

Também é certo que, ao não se permitir que as informações militares e operacionais fossem conduzidas pelas forças armadas, os ideólogos do fascismo temiam a dispersão da obtenção de dados e, por conseguinte, que os militares viessem a perceber, no calor da acção, quanto estavam a ser utilizados como elementos de uma ideologia política e jamais como defensores da Pátria e dos seus interesses.

Estando o monopólio da informação nas mãos da PIDE/DGS isso indiciava que os militares, eles mesmos, eram suspeitos de traição ideológica. As forças armadas foram, na verdade, meros executantes da repressão levada a cabo pela polícia política em África, chamando a essa repressão “guerra”, quando, com muita coerência política, em 1961, Salazar a havia classificado como “acções de polícia”, como se pode ler nos jornais da época. Assim se evidencia a relutância do general Spínola ‒ um oficial notadamente fascista e identificado com o fascismo ‒, no pós 25 de Abril de 1974, em concordar com o desmantelamento da polícia política, apontando-lhe a utilidade em África; desmantelá-la era gerar liberdade para as forças armadas assumirem o papel político que, efectivamente, assumiram.

Foram estes “nadas” que não se explicaram aos Portugueses depois do golpe militar libertador e democrático, cuja compreensão teria facilitado o processo de democratização e de descolonização.

 

Nas colónias, em especial Angola e Moçambique, a PIDE/DGS levou a cabo, pelas suas próprias mãos, massacres de populações para reprimir a expansão da guerrilha, mas fê-lo sempre com a cobertura de contingentes militares, que, pelo menos, garantiam a segurança “externa” dos recintos onde os seus agentes actuavam.

Tudo isso foi “convenientemente” esquecido, tal como a acção dos agentes ou informadores que serviam de guias às colunas militares no mato, em zonas já fortemente controladas pela guerrilha.

 

A memória militar colectiva ainda tem grande dificuldade em aceitar que as operações bélicas nas colónias fizeram parte de uma “guerra suja”, que, de patriótica, pouco teve. Ser capaz de distinguir isto da grandiosidade do sacrifício dos militares quando andavam em combate é um exercício que exige liberdade política, coragem e isenção. Nem toda a gente a possui.