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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

25.08.19

A guerra em África: Os prisioneiros negros


Luís Alves de Fraga

 

A guerra, geralmente, tem uma só versão: a do vencedor. Os vencidos calam a vergonha de serem derrotados. Mas a História dos vencedores é sempre feita na perspectiva da exaltação dos feitos gloriosos; a dos vencidos deixa escapar, quando deixa, uma raiva surda, um desapontamento contra o antigo (?) inimigo.

Há estantes super recheadas de livros, relatando os sofrimentos dos judeus e presos políticos nos campos de concentração nazis, mas onde estão os livros, os relatos, dos prisioneiros alemães nos campos de concentração aliados? Não houve barbaridades cometidas sobre prisioneiros nazis? É que a História, para não ser um simples relato apologético, tem de contar TUDO, e a honestidade dos historiadores deixa-se “comprar” pela vergonha de desnudar a natureza humana do vencedor!

 

Quem foi o vencedor da guerra colonial feita pelas Forças Armadas portuguesas? Os capitães de Abril, que acabaram com o conflito e levaram os territórios à independência, ou os guerrilheiros, que lutaram no mato? Samora Machel declarava-se vencedor, porque, uma guerra que se não ganha, perde-se!

A nossa derrota militar, nos três teatros de operações, tem-se escondido atrás da vitória do derrube do fascismo português, no dia 25 de Abril de 1974.

 

E dos prisioneiros feitos pelos militares portugueses nas operações no mato, quem fala? Esquecem-se? Foram “danos colaterais”?

Não tenho dados sobre a quantidade de guerrilheiros apanhados de armas na mão, combatendo a nossa tropa. Sei de casos esporádicos e deles concluirei uma generalização, com todos os defeitos próprios de uma abusiva universalidade.

 

Em Angola e Moçambique os prisioneiros deveriam ser entregues, com a rapidez possível, à PIDE/DGS, que os interrogava segundo os métodos próprios dessa polícia. O que lhes acontecia depois, não sei, mas, presumo, não seria bom. Houve casos de “conversão” à causa portuguesa. Por medo? Porque lhes foi poupada a vida? Porque lhes foram feitas promessas? Esses “colaboradores” desempenharam vários serviços (no meu livro A Força Aérea na Guerra em África relato o caso de um guerrilheiro guineense que se tornou funcionário da base aérea de Bissalanca), sendo o mais comum o de pisteiros ou guias.

 

Enquanto permaneciam nas unidades militares, que os haviam capturado, os guerrilheiros eram interrogados e, de acordo com uma proposta que ouvi a um graduado com responsabilidade, poder-se-ia ligar-lhe “uns fios eléctricos aos testículos que ele falava num instante”, a qual foi de imediato recusada por um oficial superior.

Quantos terão sido sujeitos a torturas deste tipo?

Todavia, de acordo com o que já expus, o homem negro com cultura africana tem uma resistência à dor física muito superior à do homem branco com cultura “ocidental”. Assim, julgo, os prisioneiros ‒ dos militares ou da polícia política ‒ terão cedido pouco aos maus tratos infligidos. No meu livro, já antes citado, incluo o testemunho de um piloto-aviador que transportou um guerrilheiro ferido e se espantou com a sua resistência à dor. São simples depoimentos carecidos de uma investigação profunda para averiguar daquilo que aqui deixo como mero indício. Julgo que, sobre este assunto, nem mesmo os historiadores africanos se debruçaram e, se o fizerem, teremos de ter sempre em conta a introdução da componente “heróica” própria do relato do vencedor.

 

Sobre os prisioneiros negros feitos na Guiné, foi-me assegurado que, durante o comando do general Spínola, eles ficavam retidos no ambiente militar e não eram entregues à PIDE/DGS, com bastante desgosto desta polícia.

Claro que uma tal política de tratamento dos prisioneiros era ditada pela forma como aquele comandante se posicionava perante a guerra. Parece-me evidente, Spínola não desvalorizava a acção da polícia política, reservando-lhe o papel de actor na obtenção de informações por infiltração nos meios do PAIGC; a informação de campanha, operacional, se se quiser, essa estava intimamente ligada aos militares e, sem ter garantias de qualquer espécie, arrisco-me a afirmar, os interrogatórios estavam muito mais próximo daquilo que está previsto nas Convenções de Genebra do que se fossem levados a cabo pela PIDE/DGS.

Também estou convencido, com base em pressupostos a demonstrar com o tempo e investigação cautelosa, que a resistência à tortura por parte dos prisioneiros não tinha fundamento na convicção política conseguida pela doutrinação feita no meio dos partidos combatentes, mas sim nos aspectos culturais que já apontei.

 

A guerra deixou segredos que ou já se não desvendam ou muito difícil será descobri-los em toda a sua plenitude.