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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

11.09.19

A guerra em África: Os comissários políticos da FRELIMO


Luís Alves de Fraga

 

Para mim, tal como para muita gente, a figura do “comissário político” obedeceu/obedece a um estereótipo traçado a partir das figuras sinistras, autoritárias e todas poderosas criadas na URSS, com o marxismo-leninismo e agravadas com o stalinismo. Esses, por representarem a autoridade do partido, estavam acima de todos os poderes, dependendo dos órgãos máximos da estrutura política.

Os meus primeiros contactos com gente da FRELIMO foram com comissários políticos e, embora receoso, percebi que, pelo menos naquele momento e com aqueles dirigentes, eu estava perfeitamente condicionado por um preconceito e por uma propaganda anticomunista feroz.

Por achar que merece ser contada esta minha experiência, passo a relatá-la.

 

Não tenho a certeza das datas, mas creio que depois do cessar-fogo alcançado na zona centro ‒ especial incidência na Gorongosa ‒ os primeiros elementos da FRELIMO a chegarem à cidade da Beira foram uns quantos comissários políticos com o objectivo de estabelecer relações com a estrutura orgânica do MFA. Em consequência das funções que eu desempenhava ‒ comissão de esclarecimento ‒ tinha, necessariamente, de perceber o que “ia na cabeça” dos responsáveis pela guerrilha, relativamente ao presente de então e ao futuro mais próximo.

Devo elucidar que o golpe militar de 25 de Abril de 1974 apanhou mais de surpresa a FRELIMO do que qualquer oficial do quadro permanente da guarnição de Moçambique. Assim, não tenho dúvidas em garantir, tudo o que me foi dito pelos comissários políticos não foi “encenado” no momento, mas constituía o pensamento já firmado há muito nas fileiras da guerrilha.

 

Quis começar por perceber o que representava, na prática, um comissário político, naquela altura, para os guerrilheiros. De imediato, compreendi que não eram figuras sinistras, antes pelo contrário, quase lhes atribui um papel ‒ salvas as devidas distâncias ‒ entre o dos nossos capelães militares e o dos professores nas nossas aldeias longínquas de Portugal. De guerra, pouco ou nada percebiam. Todavia sabiam explicar com clareza linear as razões motivadoras do conflito e contra quem deviam os soldados combater.

O inimigo não era o homem branco; era, de acordo com a sua terminologia, o colonial-fascismo, conduzido pelo governo ditatorial, que tanto oprimia os brancos como os negros. O inimigo não era os colonos fazendeiros; era as grandes companhias exploradoras que, segundo os comissários políticos, tanto exploravam o trabalhador negro como os capatazes e os fazendeiros; uns, obrigando-os a trabalhar por valores ridículos por irrisórios e, outros, por lhes incutir uma falsa ideia de superioridade que lhes tranquilizava a consciência.

Do primeiro ao último dia que com eles conversei, sempre me garantiram, com humildade, o quanto precisavam dos colonos e do saber dos colonos para poderem encontrar quem ajudasse a levar o novo país no rumo certo sem sobressaltos. A única condição que colocavam era a de que todos os europeus, asiáticos ou africanos aceitassem as mudanças de autoridade e as mudanças de regime, saindo-se de um sistema de exploração do homem para um sistema de distribuição equitativa e relativa da riqueza.

 

Era, sem dúvida, uma alteração do paradigma político e económico, gerando uma mudança no modelo social existente, mas era, também, um desafio no sentido de “conquistar” a utopia.

Nas longas conversas que tive com vários comissários políticos colhi sempre a sensação de orfandade que lhes adviria com a saída em massa da população branca.

Para não esconder nada à História, devo esclarecer que, após a entrada de Samora Machel no Norte de Moçambique e conforme foi discursando no seu avanço para Sul, rumo a Lourenço Marques, as suas palavras atearam o medo nos colonos europeus e, até, nos africanos vagamente comprometidos com o sistema colonial vigente. Dia após dia, os comissários políticos foram emudecendo e deixaram de ter argumentos para me responder às dúvidas, cada vez mais angustiantes, que lhes colocava. Todavia, insistiam na necessidade de evitar a debandada geral.

 

Na “entrada” de Samora Machel, comparada com a “permanência” de Joaquim Chissano durante o governo de transição, houve uma significativa mudança de discurso e, perante tão radical alteração, nos contactos por mim mantidos com europeus e africanos receosos do futuro, tive de ser franco e, antes do mais, honesto, manifestando a minha apreensão perante a transformação da exposição dos comissários políticos, meses antes tão conciliadores e, depois, tão silenciosos.