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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

26.07.19

A guerra em África: os administradores coloniais


Luís Alves de Fraga

 

Desde o século XVI, mal os navegadores portugueses puseram o pé em certas zonas do litoral africano, foi lançada uma “rede” administrativa sobre as regiões que o poder central achou conveniente “governar” para evitar que outras potências europeias exercessem o seu “governo” nessas áreas. No início ‒ é importante deixar isso bem claro para não alimentar “ódios” actuais contra uma “colonização portuguesa” que, de facto não existiu ‒ a coroa limitou-se a mandar construir uma fortaleza, que funcionava como feitoria ou entreposto comercial, onde se guardavam os produtos para vender aos negros das proximidades e os que se lhes compravam para serem remetidos para o reino, na próxima viagem.

Isto foi assim, na prática, até ao século XVIII e mesmo até ao começo do século XIX. E foi assim, porque a África ao sul do deserto do Saara nunca foi um território de verdadeira fixação dos emigrantes portugueses. Só depois da Conferência de Berlim, como já deixei dito antes, é que Lisboa foi obrigada a proceder sistematicamente à ocupação do interior do continente nas zonas onde já era tradicional a sua presença litoral. Foi, por conseguinte, no final do século XIX que se engendrou uma “rede” administrativa para cobrir os territórios coloniais africanos, levando até ao interior a “autoridade” do Estado. Tal facto conduziu à modificação das relações comerciais entre Portugal e esses territórios. Passou a fazer-se uma ocupação virada para a produção das matérias-primas, que tinham venda nos mercados europeus no quadro da revolução industrial.

 

Surgiu a época, primeiro, dos comissários régios e dos governadores de distrito e, depois, a dos altos comissários seguida dos governadores gerais, governadores de distrito, dos administradores de concelho e dos administradores de posto. Agregada a esta rede vinha a da polícia local chefiada, em regra, por europeus e constituída por indígenas, mais ou menos alfabetizados, com resquícios de comportamentos europeus, que se passaram a designar por sipaios, por abuso extensivo, proveniente do século XIX, quando as forças militares em Moçambique foram indianas.

Foi nessa época que começou o verdadeiro colonialismo com submissão dos indígenas à vontade dos grandes interesses coloniais. Foi, também, nessa época que se fundou, em Lisboa, a Escola Colonial com vista à formação de quadros administrativos para servirem especialmente em África.

 

Se é verdade que toda a hierarquia colonial estava, realmente, ao serviço dos interesses económicos e financeiros, que exploravam as matérias-primas africanas, ainda que supondo estar a servir Portugal, preservando um património histórico, uma boa parte desses funcionários estava, de facto, distante dos indígenas, ficando reservado para o administrador do concelho e para o administrador de posto esse papel directo. Eram eles, em especial os segundos, quem representava o lado mais odioso da exploração colonialista.

Vale a pena recordar como o faziam e qual a razão para o fazer.

 

Muitas vezes, em pequenas localidades perdidas ao lado de uma estrada mal coberta de alcatrão ou nem isso, para além da habitação de um fazendeiro ou do capataz de uma grande propriedade agrícola, havia uma casa de alvenaria onde residia o administrador de posto com a família, tendo anexa uma prisão e um gabinete de trabalho para o chefe da polícia, comandante dos sipaios. Eram eles que impunham a autoridade nas aldeias indígenas próximas. Recebiam ordens do administrador do concelho. E as ordens, antes da guerra, iam quase sempre em dois sentidos: obrigar os nativos a cultivar os produtos determinados pela administração da grande empresa, que comprava a colheita, ou angariar trabalhadores para, por valores irrisórios, servirem, de sol-a-sol, na fazenda dos grandes proprietários agrícolas.

 

Não era trabalho escravo, porque era pago ‒ valores insignificantes ‒, mas era sentido como tal, porque impedia os indígenas de cultivarem as suas lavras e cultivarem o que lhes fazia falta, por ser o tradicional, para se alimentar.

Quando as ameaças feitas pelo chefe da polícia ou pelo cabo de sipaios não eram suficientes, o administrador de posto mandava aplicar palmatoadas, dadas com régua de madeira, até as mãos ficarem inchadas prontas a sangrar.

 

Este é que foi o colonialismo sentido pelas populações. Foi este que as levou à revolta, algumas vezes à morte violenta para reprimir gritos de insurreição e acabou por os empurrar para adesão à guerrilha onde aprenderam os fundamentos teóricos e ideológicos para combater de armas na mão.

 

Foi contra este tipo de actuação que os primeiros contingentes militares, instruídos nos fundamentos da guerrilha, se bateram, enquanto combatiam os homens que lhes montavam emboscadas no mato. Depois dos primeiros momentos de revolta em consequência do massacre no Norte de Angola, os militares impuseram o fim deste colonialismo primário, já que, contra o outro, o dos grandes interesses financeiros, nada podiam fazer. A tropa sabia ‒ pelo menos os quadros de graduação mais elevada ‒ que a estrutura administrativa colonial tinha de ser saneada. Foi uma luta difícil de travar. Nunca foi vencida essa batalha e foi, também, por isso que a guerra se perdeu antes da vitória da independência dos povos colonizados.

 

Esta também é uma História que convém fazer sem receios e sem reticências, para evitar que ‒ por razões compreensíveis à luz da ciência política ‒ os novos Estados africanos inventem a História do colonialismo, que justifica, à sua maneira, a luta armada em que se envolveram.

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