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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

24.08.19

A guerra em África: O sofrimento no Homem africano


Luís Alves de Fraga

 

O texto que se segue parece não ter ligação de qualquer espécie com a temática que venho tratando, contudo, é necessário para se perceber o que virá mais adiante, num outro dia.

 

No começo da década de 70 do século passado, quando iniciei estudos sobre Antropologia Cultural, percebi que o Homem, sendo fisionómica e fisiologicamente semelhante em toda a Terra ‒ variando somente a cor da pele e alguns traços faciais ‒, apresenta diferenças comportamentais resultantes somente de algo que se chama “cultura”. É a Cultura ‒ aquilo que se aprende com a família e a sociedade por vontade daquela e desta ‒ que nos “separa”; a determinante de nos comportarmos de modo distinto de um hindu resulta do facto de este ter uma cultura diferente da nossa, ou seja, de entender a vida, o mundo e a morte de outra forma.

Se tivermos a capacidade e a elasticidade suficientes para compreender o que acabo de afirmar, seremos, também, capazes de perceber que não há culturas (ou civilizações, como alguns teimam em chamar) superiores e inferiores; há culturas diferentes, e mais nada. Em valor absoluto e relativo estão todas ao mesmo nível. Se eu quiser viver numa cubata, no seio de uma aldeia indígena de África, terei dificuldade em adaptar-me, porque, culturalmente, sou diferente daqueles que sempre ali viveram, mas, se fizer um esforço para “esquecer” a minha cultura, ao cabo de algum tempo comportar-me-ei como um negro lá nascido e criado. Em tudo? Não! Haverá sempre uma parte de mim onde residirá a cultura entranhada pela minha família e pela sociedade onde fui inicialmente educado e, nesse núcleo, não vou ser capaz de mexer, embora possa, conscientemente, tentar adaptá-lo à outra forma de estar e de ser própria do negro, que pretendo seguir na aldeia imaginada acima.

 

Passo, agora, a abordar o aspecto que me interessa: a dor física.

A sensação de dor é igual em todo e qualquer ser humano, tal como em qualquer animal com sistema nervoso. Todavia, a forma de expressar a dor, de a manifestar para o exterior, para a sociedade, difere de cultura para cultura, às vezes, até, dentro do mesmo padrão cultural, de indivíduo para indivíduo.

Então, podemos dizer que a manifestação da dor física é, em si mesma, um acto cultural.

Vou tentar ser mais explícito, socorrendo-me de exemplos.

 

Não há nenhum relato bíblico dos gritos de dor de Jesus ao ser pregado na cruz, nem de quando subia até ao Calvário, nem depois de estar suspenso; não há notícia de Aquiles ter gritado quando lhe foi cortado o tendão. O que terá levado estes dois personagens a não expressar com sons a sua dor física? Nenhuma vaca faz sons a manifestar dor quando está a parir o bezerro e, no entanto, tê-las-á; do mesmo modo as mulheres esquimós, depois de fazerem um buraco no gelo, parem os filhos de cócoras, sozinhas e sem gritos. E as mulheres da cultura judaico-cristã? E os homens da mesma cultura, quando sujeitos a sofrimento?

Claro que estou a referir-me a generalidades e não a casos singulares.

 

Chegámos onde eu pretendia chegar. O Homem negro (do sexo masculino e feminino, por isso a letra maiúscula) ‒ refiro-me àquele que recebeu educação no seio da sociedade tradicional africana ‒ culturalmente aprendeu a conter a dor física; não grita, não reclama, não “dá espectáculo”. Sofre em silêncio. Tem dores, mas não as manifesta.

Tive oportunidade de ver ser conduzido a pé, arrastado por um braço, um jovem negro, em África, com fractura exposta da tíbia e do perónio sem dar um grito! Provavelmente, se fosse afro-americano, gritaria! Aqui está a influência da cultura.

Todos os negros que sofriam o castigo das palmatoadas não gritavam, embora se contorcessem com as dores.

O professor Oliveira Marques, há bastantes anos, deu à estampa uma obra intitulada “Portugal Quinhentista” e nela um autor do final do século XVI relata a alegria dos escravos negros quando, ao fim da tarde, iam despejar os canecos de dejectos das famílias ricas e nobres de Lisboa. Por serem escravos, no nosso entender, deveriam viver tristes e macambúzios, mas a cultura de origem levava-os a estarem alegres. Essa mesma alegria foi por eles transportada para o Brasil.

 

Podia continuar com exemplos, correndo, contudo, o risco de ser contestado, mas, para se compreender o que acabei de expor é necessário ter em conta que a observação, a ser verdadeira, só o é para aqueles que ainda estão sujeitos à enculturação tradicional.

Depois perceber-se-á onde pretendo chegar.