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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

14.07.19

A guerra em África: o convencimento dos colonos


Luís Alves de Fraga

 

Em Portugal, buscar fortuna fora de portas, parece ser vocação ou castigo.

Para não dar grande importância à época dos Descobrimentos e da Expansão, basta pensar que, no século XIX e no começo do seguinte, o Brasil e outros Estados da América do Sul foram o grande atractivo de quem procurava melhorar a condição de vida.

‒ E esta “fuga” de cá, por que será, nunca se reflectiu, em grande, nos domínios portugueses de África?

A explicação é simples e diz-se em três palavras: excesso de centralização administrativa. E isto foi verdade nos anos da Monarquia como nos da República. Deve acrescentar-se que, no continente africano, tinha de se contar com a oposição dos nativos ao trabalho ordenado pelos europeus e para grande benefício destes. E, para ser ainda mais completo, devo recordar que a real e verdadeira colonização só começou depois de 1885, com a realização da Conferência de Berlim, a que já me referi anteriormente.

Em conclusão, posso afirmar, sem receio de estar enganado, a “grande colonização” de Angola e Moçambique arrancou depois do final da 2.ª Guerra Mundial e afirmou-se em pleno nos anos de 1962/1963 até 1973/1974. Nesta última década, a explosão migratória foi “brutal” se comparada com os cinquenta anos anteriores.

 

Esta “brutalidade” ficou a dever-se à mentira tantas vezes repetida ‒ posta em marcha pela propaganda salazarista ‒ de que Portugal era um Estado uno e indivisível. Os antigos residentes ‒ os “velhos colonos” como se chamavam em Moçambique ‒ e os novos, à semelhança dos Alemães aquando das chacinas nazis, acreditavam, sem a menor sombra de dúvida, no que lhe era dito. Acreditavam pia e inocentemente. E acreditavam, porque todo o tipo de mentiras que nos é conveniente, ainda que ilógico e improvável, aceitamo-lo, pois, duvidar, é tão doloroso que a mente se recusa à concordância com a verdade (perdoem-me o plebeísmo e ausência de cientificidade, mas só assim, muitas vezes, se explica que “o corno seja o último a saber”, por ser evidente demais a infidelidade). Os colonos portugueses europeus recusavam a “infidelidade” governamental. Para esta recusa, além da propaganda, contribuíram vários outros factores.

 

Da minha experiência vivida em Moçambique, nos distantes anos de 1966-1969 e de 1973-1975, ficou-me a certeza de que na, então, Lourenço Marques e hoje Maputo, se julgava a guerra como alguma coisa a acontecer lá muito a Norte, muito circunscrita a uma só região, sem grandes possibilidades de chegar ao Sul. Embora situada a meio caminho, na cidade da Beira, o sentimento era quase idêntico. Toda a gente vivia tranquila, sem admitir a precária a situação existente. Mantive delicadas discussões com residentes sobre a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, havia de ocorrer uma independência negra em resultado da vitória da FRELIMO. Recebi como resposta uma pergunta: «E diz que é oficial do quadro permanente e defende Portugal?».

A par desta doce inocência, a sensação de segurança, de eternização, aumentava com a crescente dificuldade em colocar economias em Portugal, obrigando a investir na colónia, através de compra de casa ou de fazer aplicações em negócios. Não lhes passava pela cabeça analisar a situação pelo avesso.

 

Em Angola, o rápido sucesso das forças armadas, empurrando a guerrilha, nos anos de 1961 a 1965, lá para o Norte, distante de Luanda, gerou-se igual sentimento, entre os colonos, tanto do litoral como do centro ou do Sul. Uma muito vaga ameaça aconteceu lá no Leste, em Henrique de Carvalho, quando o MPLA, deslocou para a zona uma facção da sua força.

Continuava-se a colher algodão, a vender café, a comer camarão, a poder cortar todo ‒ ou quase todo ‒ o território de carro, a caçar na savana, a eleger misses, a ver cinema e a ir à praia. Então, a guerra era um entretém dos militares, que a desejavam, para amealharem uns dinheiros.

 

Quase ninguém dava pela existência de hospitais militares onde eram visíveis os estropiados a fazer de conta que se recuperavam das suas amputações. Ninguém percebia que a aparente ausência de guerra só era isso mesmo, porque não havia maior empenhamento no fornecimento de melhor e mais sofisticado armamento aos guerrilheiros, pejorativamente chamados “terroristas”. Teriam bastado pequenos atentados urbanos, para toda a gente perceber a gravidade da guerra. Mas nunca houve. E nunca ocorreram, porque os guerrilheiros sabiam que seriam seguidos de matanças em massa das populações negras da “cidade do caniço” ‒ como se dizia em Moçambique ‒ ou dos musseques ‒ como se chamavam aos bairros periféricos, em Angola.

 

Na Guiné, a situação era diferente, porque, tirando alguns comerciantes, os colonos europeus eram em muito pequena escala e concentravam-se em Bissau. Nesta colónia, muito depressa, percebeu-se a gravidade da guerra e a possibilidade de o conflito subir de patamar, tal como aconteceu.

Mas, para os colonos de Angola e de Moçambique, a Guiné estava muito longe e a guerra continuava a ser um assunto limitado aos militares; e eles gostavam de fazê-la!

 

Da minha vivência de duas comissões de serviço, na retaguarda da guerra, que não teve frente de combate, conclui que a vontade de tapar os ouvidos, de fechar os olhos e de negar as evidências levou os colonos a reagir de maneiras impróprias e inesperadas. Só isso e nada mais. Foram vítimas, mas não o foram somente de Salazar e da sua política colonial; foram vítimas de si próprios, da sua cegueira, da sua surdez e da sua falta de discernimento.

A culpa de uma guerra perdida não foi dos militares.