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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

22.08.19

A guerra em África: O colonialismo na Guiné


Luís Alves de Fraga

 

O território que foi conhecido por Guiné ‒ colónia portuguesa ‒ hoje Guiné-Bissau, está inserido numa ampla zona que, aquando da Expansão Marítima, no século XV, se designava Guiné e fica a Norte do Golfo com o mesmo nome.

Era, então, já uma zona sob influência islâmica, que passava através do deserto do Saara trazida pelas caravanas que o atravessavam em demanda da cidade de Tombuctu rica pelas trocas, desde o século XII, de escravos e ouro por sal.

Não foi por acaso que os navegadores portugueses procuraram chegar àquela zona: eles sabiam que podiam fazer o mesmo que o império Mali, só que, em vez de usarem o deserto usavam o Atlântico. Aliás, para quem quiser estudar com olhos estratégicos a epopeia marítima portuguesa percebe que toda ela se fez no sentido de retirar ao Islão as suas fontes de comércio, primeiro, em África e, depois, no Oriente. A implantação de feitorias militares e comerciais na região da Guiné são bem demonstrativas dessa estratégia essencialmente mercantil. Os Portugueses não fizeram nada de diferente daquilo que faziam os Islâmicos.

 

A rodagem dos séculos e as mudanças históricas operadas, elevando à categoria de potências marítimas Estados europeus ainda insipientes nos séculos XV e XVI, levou a que o comércio português mudasse de mãos, ficando somente, no que toca à Guiné, alguns postos marítimos por onde se fazia o negócio negreiro, agora destinado ao continente americano. Bolama, Cacheu e outros foram pontos de fixação portuguesa. Por causa dessa presença, depois de 1885 ‒ Conferência de Berlim ‒, Portugal ficou com uma pequena colónia na costa da “velha” Guiné do século XV onde se concentravam mais de vinte etnias negras, muitas delas islamizadas.

Mas a Guiné do final do século XIX, depois de findo o tráfego negreiro e acabada a escravatura nas Américas, pouco ou nada rendia do ponto de vista comercial. Valeu-lhe o aparecimento da industrialização do óleo de palma usado para vários fins e nele e nela (Guiné) ficou interessada a Companhia União Fabril (CUF), de Alfredo da Silva.

 

Acontece que o clima guineense é quase insuportável para os europeus daí que, associado à falta de motivos interessantes para uma exploração económica, a colonização da Guiné foi, habilidosamente, transferida, pela administração portuguesa, para os cabo-verdianos, cujo arquipélago, por ser pobre, não oferecia condições de vida para os que, tendo alguns estudos, queriam uma melhor situação económica do que a ditada pela emigração para a Europa ou Américas.

Assim se encheram os quadros administrativos, comerciais e docentes da Guiné com aqueles ilhéus ‒ veja-se o caso mais emblemático de Honório Barreto ‒ em detrimento dos indígenas confinados à vida agrícola, cultivando arroz e colhendo amendoim.

 

Foi da descendência dessa colonização cabo-verdiana que nasceu o teórico marxista fundador do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), Amílcar Cabral.

É por demais evidente a estratégia do líder guineense: ligar Cabo Verde à Guiné para lhes dar importância conseguida pela complementaridade: o arquipélago funcionaria para o continente africano como os Açores para Portugal. Claro que, por trás, estava a continuidade de escoamento dos cabo-verdianos e a sua liderança na Guiné. A morte prematura do mentor político e as rivalidades entre guinéus e cabo-verdianos invalidou qualquer tipo de arranjo estratégico.

 

O mais curioso é que a artimanha portuguesa de colonizar a Guiné com gente ida de Cabo Verde se virou contra o fascismo colonial de Salazar. A História e a Vida têm coisas inesperadas!