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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

09.07.19

A guerra em África, no mato


Luís Alves de Fraga

 

Já caracterizei a longevidade da guerra colonial e o modo como se desenrolou, mas torna-se necessário, ainda que de uma forma genérica, contar como se confrontavam as forças militares em presença, no mato.

 

Uma guerra de guerrilhas não impõe a necessidade de grandes contingentes militares a operar; poucos homens são menos vulneráveis, têm mais mobilidade e podem desenvolver acções com maior grau de surpresa, porque esta é fundamental na guerrilha. Isto custou a ser aprendido no Exército português; só no ano lectivo de 1963/64, nas manobras finais da Academia Militar, é que nos foram ministradas, pela primeira vez, claras noções de acção táctica em ambiente de guerrilha; até então tudo se passava como se o conflito fosse clássico.

Há outro factor primordial para quem faz a guerrilha: a adesão das populações. O guerrilheiro encontra no seio das povoações o apoio de que carece para sobreviver, pois não dispõe de sistema logístico básico para se manter no terreno; as tropas regulares, tendo por trás de si toda uma complexa máquina logística, carecem de se assegurar da lealdade das populações para a negarem ao inimigo. A guerra, nos matos de Angola e Moçambique, passava por cativar os habitantes das aldeias indígenas para as facções em luta. Ocupar o terreno era menos importante do que conquistar populações.

 

Uma vez identificada, pelos serviços de informações ‒ PIDE/DGS ‒, uma aldeia “amiga” dos guerrilheiros, a actuação das tropas portuguesas passava por, com a surpresa possível, assaltar a povoação, perseguir os elementos suspeitos, prendendo-os ou matando-os. Pode imaginar-se como era feita a triagem, debaixo de fogo.

 

Em todas as deslocações terrestres para o objectivo, as nossas tropas tinham de fazer percursos por picadas ou trilhos, a pé ou em cima de camiões militares. Esses eram os momentos mais angustiantes da acção, porque espreitavam dois perigos: a explosão de minas ‒ anticarro, que atiravam viaturas pesadas a uma significativa altura, dando para matar ou estropiar muitos, ou todos, dos ocupantes; antipessoal, porque matava ou mutilava quem a pisasse ‒ e ou emboscadas bem montadas que, no imediato da surpresa, podiam produzir feridos e mortos entre aqueles que estavam na chamada “zona de morte”. Normalmente, a emboscada era rápida, mantendo-se fogo nutrido durante pouco tempo.

Recomposta a coluna, havia que pedir a evacuação aérea – em helicópteros ‒ dos feridos e dos mortos (um pouco mais difícil).

 

Não referi as operações na Guiné, porque, na sua maioria não diferindo das outras ‒ embora o patamar do modo de fazer a guerra tenha subido rapidamente da típica guerrilha para a quase guerra “clássica” ‒ havia quartéis de companhias, no mato, absolutamente bloqueados nos seus movimentos, que só recebiam abastecimentos por via aérea ou fluvial, quando muito próximos dos rios; no resto do tempo limitavam-se a responder ao fogo pesado com fogo de morteiros ligeiros ou médios. Estes aquartelamentos eram os verdadeiros “buracos” indesejados de todos os combatentes. Para que este quadro tivesse atingido cores tão negras foi necessário à guerrilha “conquistar” a maioria da população guineense.

 

Falar de massacres de aldeias indígenas é algo de que me abstenho, porque, em qualquer “golpe de mão”, havia baixas inocentes feitas por soldados loucos com o cheiro da pólvora ou dominados pelo poder de vida ou de morte que a posse de uma G3 lhes dava.

O stress pós-traumático tanto pode resultar do medo controlado, como do horror de conviver em permanência com a morte ou, também, por recordar, a dormir ou acordado, os crimes praticados sobre gente que, com inocência ou não, ajudava o inimigo, lutando pelo direito à independência e à liberdade.

 

Mas, na guerra, há dois lados: o nosso e o do inimigo.

E como foi vivida a guerrilha, no mato, pelos engajados no processo de independência? Faltam-me relatos fidedignos para descrever essa outra face de um mesmo tormento. Todavia, por comparação com o que sobra de histórias de guerra entre os nossos combatentes, parece possível imaginar o que foi o medo, a fome, o cansaço, o sofrimento, a dor e a aflição entre os guerrilheiros. Nada mais tinham do que os poucos alimentos e água que podiam transportar mais as armas e munições, estando à mercê do bom ou mau acolhimento das populações das aldeias onde procuravam, com base na propaganda aprendida, o necessário para sobreviver. E deviam temer, mais do que tudo, as denúncias voluntárias ou arrancadas sob tortura pelos informadores ou agentes da PIDE/DGS.

 

Há muitos outros aspectos desta guerra a serem tratados, por isso, a eles voltarei em breve.