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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

17.07.19

A guerra em África: Movimento Nacional Feminino


Luís Alves de Fraga

 

Em Fevereiro de 1961 começaram as hostilidades em Angola. O discurso de Salazar marcou a gente da minha geração, e teve especial relevo o slogan dele saído: «Para Angola, rapidamente e em força».

O que sabíamos nós deste desafio? Em rigor, pouco ou nada, porque estávamos de olhos fechados pelo refrão de um «Angola é nossa».

 

Não se imagina hoje o que foi a propaganda nacionalista em Portugal feita nas escolas primárias e, depois, nos estudos seguintes continuados pelos mais afortunados. Respirava-se “Pátria” a todos os momentos! Por isso, a resposta maciça de todos os jovens entre os dezassete e os vinte e tal anos ao apelo de defesa do “património herdado dos nossos maiores”, foi quase unânime.

Eu concorri à Escola Naval e reprovei na prova mais simples, a de Geografia, porque, a uma capciosa pergunta de desenvolvimento sobre o futuro de Angola, respondi o que pensava, já na altura: “agora, havia que defender para mais tarde permitir a independência conveniente e necessária.” Ora toma! Falta de patriotismo, ainda mais, sendo oriundo do Instituto dos Pupilos do Exército.

 

Em 28 de Abril de 1961, data do aniversário de Salazar, uma jovem senhora de quarenta anos de idade, a Cecília Supico Pinto ‒ Cilinha, para toda a gente ‒, casada com um antigo ministro do ditador, sem filhos, ainda parente de Pinto Balsemão pelo lado materno, vê oficializada a criação do Movimento Nacional Feminino (MNF) do qual era presidente.

‒ Quem eram estas senhoras integrantes deste “Movimento”?

Está bem de ver, eram familiares de gente da alta burguesia endinheirada e protegida pelo fascismo. Eram “almas caridosas”, bem instaladas na vida, prontas a “ajudar” os desgraçados dos ignaros ‒ sinónimo de ignorante, estúpido, bronco ‒ soldados, vindos das “berças” e “despachados” para África para lhes defender interesses directos ou indirectos. Era gente para quem o patriotismo passava por lanches com chá e torradas e almoços e jantares servidos nos seus salões por criadas fardadas a rigor.

O MNF espalhou-se, depois de fundado, à “boa sociedade” das mais importantes cidades de Portugal e às das colónias, onde as damas brincavam ao apoio aos soldadinhos.

 

Nos dias dos embarques para a guerra lá andavam elas, com um avental branco, impecável, a distribuir maços de cigarros e outras ridicularias pelos soldados.

Iam a África, às capitais de distrito, está claro, encontrar-se com os coronéis, os brigadeiros e oficiais dos estados-maiores, que as levavam a visitar inocentes unidades militares onde nem uma mosca corria perigo.

 

Em rigor, inventaram uma folha de papel dobrável, a que chamaram aerograma, que não pagava porte postal, para os militares escreverem à família. No mais, engendraram apoios às famílias dos soldados e aos que regressavam desmobilizados. Visitavam os mutilados nos hospitais militares e “davam-lhes apoio moral”, usando palavras “carinhosas”.

Sabe Deus o que ouvi a propósito dessa “caridade” praticada por tais senhoras”.

Mas, o pior de tudo, é que elas estavam convencidas do seu papel e da sua acção moralizadora das tropas! Perceberam, todavia nunca quiseram aceitar, que eram mais um “bom e grande” apoio da propaganda fascista. O MNF não abrangia, realmente, as mulheres de Portugal! Eram só algumas que lá militavam e não eram as que sofriam com a guerra em África.

 

Só os “brandos costumes” ‒ para não lhe chamar idiotice congénita ‒, que nos caracterizam, justificam a ausência de pedido de responsabilidades a estas senhoras e a quem lhes deu cobertura, no pós-25 de Abril de 1974. É que o MNF foi, sem dúvida, um aparelho alienante e amortecedor da opinião pública sobre a guerra injusta e injustificável em África.