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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

23.07.19

A guerra em África: imprensa, rádio e censura


Luís Alves de Fraga

 

Já antes referi que, na maioria das colónias africanas, a acção da polícia política foi, durante muitos anos ‒ até 1960 ‒ reduzida ao mínimo indispensável para assegurar o movimento nas fronteiras mais comuns: portos marítimos habituais e aeroportos. Esse pilar da ditadura fascista estava “encolhido”, por razões também mencionadas. Todavia, os mecanismos de controlo da expressão livre do pensamento mantinham-se activos, por uma questão de princípio. A censura aos jornais, à rádio e aos espectáculos existia para controlar aquilo que os colonos podiam ler, ver e ouvir. Mas esse controlo seria preciso? Não existiria a censura só como um mecanismo embrionário e sem uma acção repressora notória ou só relevante em situações extraordinárias?

 

A censura, como resultado do analfabetismo das populações nativas, virou-se, a partir do começo da guerra, para os colonos, mas ‒ e é só um mas, resultante da minha observação pessoal em Moçambique ‒, provavelmente, com instruções especiais e diferentes das que vigoravam em Portugal.

 

Na verdade, nos anos entre 1966 e 1974 (Abril), as fitas cinematográficas, vindas da África do Sul, na sua quase total e esmagadora maioria, não apresentavam os “saltos” resultantes dos cortes censórios e víamos, na íntegra, as cenas tidas como desaconselháveis em Portugal; o mesmo acontecia com os diálogos. Seria porque a distribuidora era sul-africana e não se podia “estragar” o “celulóide”, porque, caso, para mim inédito, as legendas não eram sobrepostas na “fita”, como em Portugal, mas corriam ‒ muitas vezes desfasadas dos diálogos da língua original ‒ num outro pequeno ecrã por baixo do principal?

 

Também, no ano de 1973, vi, na cidade da Beira, a representação da peça “La Fuente Ovejuna” tendo como figura principal Eunice Muñoz, com a peculiaridade das actrizes representarem uma parte do espectáculo em tronco nu (absolutamente impossível em Portugal, nessa época). Acresce que a voz em segundo plano imitava, na perfeição, a de Salazar.

Que censura era esta?

Percebe-se a razão de tantas interrogações.

 

Mas a censura actuava sobre os jornais, embora esteja convencido, que, também de forma branda, com a única exclusão das notícias sobre a guerra. Dessas pouco ou nada surgia. A guerra era um assunto tabu. E era aqui que a censura dava o braço à propaganda alienante da opinião dos colonos, empurrando-os para um desconhecimento que lhes dava a sensação de segurança. Neste particular há que destacar a declarada perseguição de que foi alvo o bispo da Beira e o jornal da diocese dele dependente. E foi alvo dessa perseguição, porque, entre outras atitudes politicamente “pouco recomendáveis”, ousou criticar os gastos sumptuosos feitos, no começo de 1969, com o casamento de uma das filhas do enigmático e “secreto” engenheiro Jorge Jardim, figura, supostamente, da confiança do regime.

 

Em Moçambique a emissora de rádio que cobria todo o território era a do Rádio Clube de Moçambique. Tinha várias frequências, algumas das quais emitidas em línguas nativas. Não percebíamos nada, mas era, de certeza, sobre essas frequências que a censura e a PIDE/DGS mantinham uma apertada vigilância, pois serviam para fazer a contrapropaganda. E devia resultar, porque um dos grandes prazeres do homem da rua, negro, descalço e às vezes andrajosamente vestido, era levar ao ombro um aparelho de rádio, a pilhas, ouvindo as músicas sincopadas do folclore africano; o outro era usar óculos escuros.

 

Da minha experiência, posso dar testemunho, entre 1973 e 1974, que na Emissora do Aeroclube da Beira (controlada pela influência política do engenheiro Jorge Jardim) nada do que era transmitido em língua portuguesa era censurado pela Comissão de Censura, até ao dia em que, depois da morte de Salvador Allende, resolvi fazer um apontamento sobre as virtudes do regime chileno presidido pelo recente assassinado. Todas as minhas crónicas passaram a ter de receber autorização prévia para irem para o ar.

Não sei como se passava em Angola, mas recordo-me que na Guiné, sob o governo de Spínola, foi mandado fazer e distribuir a todos os naturais um rádio portátil sintonizado para uma só emissora, que transmitia propaganda organizada no estado-maior do comando-chefe.

 

A única conclusão que tiro daquilo que escrevi e vivi nas comissões militares em Moçambique é que a censura, todo o tipo de censura, estava virada para o que podia moralizar a guerrilha e “desnortear” as populações autóctones, porque, sobre os colonos, havia a certeza da sua concordância com a guerra e o regime que a suportava.

Em suma, os europeus eram “fiéis” ao salazarismo e ao colonialismo fascista que se praticava, ainda que houvesse divergências, mas estas não eram de molde a desviar as atenções do que, em Lisboa, se considerava essencial: a guerra.

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