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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

25.07.19

A guerra em África: feridas que sangram


Luís Alves de Fraga

 

Ao fazer História ‒ aqui não estou a fazê-la, mas a deixar pistas para quem a quiser fazer ou, sobre esta temática, desejar reflectir ‒ há sempre, quando nos debruçamos sobre a guerra, tendência a esquecer o inimigo, a relegá-lo para outro plano. Também, por cá, pouco se tem falado dos guerrilheiros, que se opunham à nossas tropas no mato. Não quero incorrer nessa injustiça ‒ porque acho uma injustiça esquecer o adversário ‒ ainda que tenha pouco a dizer, por não dispor de informação documental e não desejar socorrer-me de relatos, provavelmente, fantasiados.

 

Quase de certeza, também pelo mato ficaram sepultados muitos guerrilheiros, hoje esquecidos das autoridades dos seus países. Sepultados, porque imediatamente mortos pelas nossas tropas ou porque foram morrendo na sequência de terem sido feridos, sem condições de tratamento apropriado.

É verdade que, quando capturados pelas nossas forças, aos guerrilheiros feridos eram dispensados alguns cuidados, pelo menos, na esperança de que dessem informações, que ajudassem à continuação da luta. Só em casos, quase pela certa, excepcionais foram transportados para os hospitais portugueses e ali tratados com a humanidade devida aos prisioneiros de guerra. E, nos casos em que assim não foi, julgo, outro tratamento aconteceu ditado pela natureza do conflito, porque a guerrilha, tendo regras, facilmente as ultrapassa quando a razão da luta é ideológica. Nem sobre uns nem sobre outros há estatísticas válidas. Somente podemos imaginar dramas e não mais do que isso.

 

No ano de 1974, lá pelo mês de Novembro ou começo de Dezembro, na qualidade de oficial mais antigo, acompanhei uma delegação da FRELIMO na visita ao aeródromo de Nova Freixo, no qual eu estava temporariamente colocado. Um dos elementos, o comissário político, olhou o invólucro vazio de uma bomba de napalm e inquiriu-me sobre o que era aquilo. Expliquei e ele, jovem ainda, chamou a atenção para o chefe da delegação, um velho guerrilheiro, que, “fuzilando-o” com o olhar, respondeu: «Conheço bem e conheço os efeitos». Depois, levantou a calça para deixar à mostra, na perna, uma horrível cicatriz de profunda queimadura. Houve um silêncio de morte naquele instante. Sobre mim caiu a culpa daquele bombardeamento, que não fiz, e disfarcei, puxando de um cigarro, que acendi… Ainda fumava!

 

Não imagino em que circunstâncias foi aquele guerrilheiro ferido, mas calculo as dores físicas sofridas e a coragem moral e política para estar ali, com um ar tranquilo, a olhar para o invólucro de uma bomba que, por a guerra ter acabado, não fez mais vítimas.

Ele transportava em si todas as dores e sofrimentos de quem, por uma causa ‒ a da independência do seu país ‒ lutou, morreu, ficou ferido e estropiado.

 

As vítimas das guerras acabam por não ter pátrias. A dor e a capacidade de perdão, de tolerância, ficam sendo a bandeira a que prestam honras maiores.

Provavelmente, já restam nas antigas colónias portuguesas poucos veteranos da guerrilha, mas sobrevivem ainda lembranças do tempo dos combates. Lembranças bem vivas, de carne e osso. Quase pela certa, com uma cor de pele mais clara.

 

Quantos mulatos nasceram de relações ocasionais entre soldados portugueses europeus, e jovens mulheres negras naturais de aldeias, no mato, por onde passaram colunas militares, ou naturais dos bairros periféricos das cidades de betão, que vinham ganhar para o comer?

Também não sabemos! Sabemos que essas mulheres-crianças ‒ a maioria ‒ e as menos jovens carregaram filhos, que tiveram como pais os militares europeus, vindos de longe e que em nada as ajudaram. Elas entregavam-se-lhes por medo ‒ quase sempre ‒, por admiração, atraídas pela diferença, para serem pagas com umas moedas, por indiferença e, não sei, por ignorância. Fosse qual fosse o motivo o “rasto” ficou. Ao ficar, terá, por certo ‒ mesmo admitindo muita tolerância cultural‒, tido de enfrentar os usos e costumes da sua gente, da sua cultura. Ninguém, do lado português, se importou com isso… Com um filho de cor mais clara, marca da passagem do homem branco, ela teve de sobreviver. E não sabemos como.

Continuamos a não querer saber nada sobre isso, sobre esses meninos mulatos ‒ hoje homens e mulheres adultos, se ainda forem vivos ‒ filhos da guerra.

 

O que ditará os “silêncios oficiais” à volta dos dramas íntimos gerados por causa do som das armas? Que medos se querem arrenegar?

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