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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

11.07.19

A guerra em África: comandos e pára-quedistas


Luís Alves de Fraga

 

Seria estultícia minha querer, em um simples apontamento, fazer a história do que foi a actividade dos pára-quedistas e dos comandos, na guerra em África. Aqui só pretendo deixar referência à sua utilização genérica na luta contra os diferentes guerrilheiros dos diferentes movimentos de libertação.

 

Tal como os fuzileiros, os comandos e os pára-quedistas ‒ considerados tropas especiais ‒ estavam dependentes, directamente, do comando-chefe de cada teatro de operações. Era ao mais alto nível que se decidia a sua utilização, ou seja, o onde, o como e o quando. Essa era a grande diferença relativamente às tropas de “quadrícula” ‒ unidades usadas para garantir a ocupação do terreno e a “ordem” numa área bem definida ‒ mas esse era, também, o seu imenso “calvário”, pois estavam-lhes destinadas operações, exigindo um grau de dureza só possível de ser aguentado por quem tinha preparação física, anímica e militar de alto nível. E eles tinham-na. Para eles, o contacto com o perigo de morte não era resultado de um acaso; era um imperativo que se tornava habitual.

 

Naturalmente, estas forças especiais estavam mais sujeitas a serem “tentadas” à prática de uma guerra mais cruel, porque, para eles, também, a aproximação ao momento do combate era mais exaustiva, mais tensa, mais stressante ‒ diríamos hoje ‒ do que aquilo que ocorria com as restantes tropas. O combate era o instante em que se libertavam as tensões acumuladas durante muitas horas ou mesmo dias seguidos.

Claro que nada disto desculpa ‒ embora possa justificar parcialmente ‒ massacres como o ocorrido em Wiriyamu, ainda que deste, por ter sido objecto de maior atenção e divulgação ‒ levado a cabo por uma companhia de comandos ‒, se saiba ter resultado da instigação da PIDE/DGS para se efectuar um extermínio total das populações, dada a proximidade da zona à cidade de Tete, onde já havia forte infiltração de guerrilheiros da FRELIMO.

 

As tropas pára-quedistas estavam distribuídas por batalhões nos três teatros de operações: na Guiné um, em Angola um e em Moçambique dois. Tal como as companhias de comandos (ainda que com diferenças quanto ao apoio logístico), não representavam elevados efectivos numéricos dado o seu poder de fogo e de mobilidade serem excepcionalmente elevados, o que lhes oferecia a possibilidade de surgirem como melhores dotadas do que uma companhia “normal”. Também se caracterizavam por, organicamente, poderem constituir-se em pequenos grupos comandados por um sargento. Curiosamente, as tropas pára-quedistas, durante a guerra colonial, só duas ou três vezes fizeram uso da sua máxima característica: o salto de avião; em contrapartida, tanto elas como os comandos, usaram, tanto quanto possível, o helicóptero como meio de colocação em área próxima dos pontos de combate.

 

Como já referi antes, por serem tropas de elite, na generalidade, os seus quadros mais responsáveis compreendiam a guerra pela guerra e não a guerra colonial como um instrumento temporário para gerar oportunidades à solução política do conflito. Esse facto constituiu uma fragilidade durante o processo de democratização que se seguiu ao acto revolucionário de 25 de Abril de 1974. Julgo ‒ e é uma opinião pessoal ‒, uma certa deriva dos comandos para posições mais conservadoras resultou exactamente da sua excessiva “profissionalização bélica”, tendo acontecido algo semelhante com a oficialidade pára-quedista, ainda que não tão drástica como a dos seus camaradas do Exército ‒ os pára-quedistas eram, então, uma força orgânica da Força Aérea.

 

Hoje, as Forças Armadas de Portugal são, no seu todo e em geral, “conservadoras”, se entendermos como tal a sua absoluta subordinação ao poder político, ainda que democrático.