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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

20.07.19

A guerra em África: censura da correspondência postal


Luís Alves de Fraga

 

Controlar a informação, quando um Estado está em guerra, é absolutamente natural, pois todo e qualquer dado permite, a uma razoável rede de espionagem, perceber as intenções do inimigo e, porque a guerra é um acto dialéctico, antecipar acções com vista a gorar os desejos do adversário.

Se aceitarmos como legítimo o conceito anterior, podemos concluir, de imediato, que o Estado Novo ‒ o fascismo português ‒ viveu sempre em estado de guerra, pois fez da censura, em todos os seus mais variados aspectos, o instrumento de controlo do “adversário”, talvez do inimigo, que era o cidadão comum com opiniões divergentes da “verdade” oficial.

No decurso da guerra colonial acentuou-se ‒ se é possível dizer ‒ ainda mais esse controlo, exercido agora sobre todos os que, de alguma forma, se manifestavam em desagrado, mesmo que ínfimo, com a política salazarista.

 

Seria compreensível que se instalasse uma censura prévia no seio das forças armadas, para evitar fugas de informação. Podia, até, assumir os contornos da que se usou na Grande Guerra: a correspondência ser lida pelo graduado respectivo, que a fechava, depois de ter ocultado o que devia ser reservado. Mas não foi assim que se fez. Essa função fiscalizadora era exercida por serviços especiais junto dos centros de tratamento e encaminhamento das cartas e encomendas. Não se conheciam as caras daqueles que abriam ‒ declaradamente, violavam ‒ a correspondência para a desviar do seu destino, se nela figurassem informações inconvenientes ao regular desenvolvimento das operações militares.

 

Mas, nesta guerra, atendendo à sua especificidade e aos fracos meios de espionagem, chamemos-lhe, estratégica dos movimentos de libertação ‒ porque seria aquela que colheria informações antecipadas dos movimentos militares ‒ o verdadeiro perigo não recaía sobre o conhecimento precoce daquilo que as tropas iriam ou não fazer, mas sim na corrosão da retaguarda e da vontade anímica do combatente. Este facto facilitava muitíssimo a actividade da censura postal de Portugal para as colónias e destas para Portugal e, também, entre elas. Facilitava, porque bastava vigiar a correspondência dos indivíduos previamente identificados como “subversivos” ou “politicamente suspeitos”. A partir da vigilância das cartas de um, a rede ampliava-se, dando origem a um simples jogo de paciências.

 

Julgo, não passa de uma atoarda maldosa acusar seja quem for de fornecer informações ao inimigo quanto aos movimentos das nossas tropas, pois, em regra, as operações de certa envergadura eram planeadas em segredo e só delas tomavam conhecimento os militares quando já estavam em movimento. E mesmo que soubessem com algumas horas de antecedência, a rede de transmissões dos guerrilheiros era tão fraca que, com muita dificuldade, a informação chegaria aos operacionais em tempo útil.

Tudo isto justificava que a censura postal seguisse os trâmites já indicados anteriormente. E, para reforçar esta hipótese ‒ porque não tenho ainda outra forma de olhar para a questão ‒ vou socorrer-me do relato de dois episódios passados comigo, na segunda comissão em Moçambique ‒ cidade da Beira ‒ logo nos meses de Abril a Junho de 1973.

 

Mal cheguei à minha unidade ‒ Batalhão de Caçadores Pára-quedistas n.º 31 ‒ expedi uma carta, começada a escrever ainda em Lisboa, endereçada à direcção do jornal “Expresso”, para ser publicada na secção dedicada aos leitores. Acompanhava-a um cartão de visita meu, com algumas palavras para Pinto Balsemão. Nela, se a memória não me falha, de acordo com as limitações impostas pela Censura, defendia que a defesa das “Províncias Ultramarinas” devia ser feita até ao limite do aconselhável e possível de suportar pela Nação, tendo, depois, de se escolher o momento para negociar a independência ou entrega aos movimentos de libertação, tal como tinha acontecido, no reinado de D. João III, quando se decidiu sair das praças fortes do Norte de África, desistindo de um esforço inútil e custoso para os cofres da coroa.

 

Como se comprova pela consulta do processo de Pinto Balsemão na PIDE/DGS, de Lisboa, a minha carta e o cartão de visita foram fotocopiados e remetidos pela delegação daquela polícia política para a sede em Lisboa. Ou seja, porque me escrevi com um cidadão alvo de vigilância policial, passei a estar referenciado pela PIDE/DGS da cidade da Beira (pode verificar-se, as linhas gerais do que relato, por simples consulta na Internet).

Admito que eu, antes deste episódio, não estivesse identificado pela famigerada polícia. Todavia, a carta para Pinto Balsemão deve ter sido o rastilho para o que se seguiu.

 

Sem certeza quanto a datas, em Abril ou Maio, talvez começo de Junho, escrevi uma longa, muito longa, carta, em papel de avião, para o meu pai, relatando com muitos pormenores, o massacre de Wiriyamu, perto de Tete. Fi-lo, por me ter sido contado por um médico da Força Aérea ‒ capitão Simões ‒ a prestar serviço no hospital daquela cidade do interior de Moçambique. Ou seja, o meu relato estava muito próximo das fontes de primeira mão, pois o clínico encontrava-se junto do director do hospital quando este foi avisado, por uma freira-enfermeira, da chegada dos primeiros feridos à cidade com a indicação de haver mortos pelo caminho.

Em Portugal, Marcelo Caetano negara, na televisão, em uma das suas célebres “Conversas em Família”, a existência de qualquer povoação com o nome de “Williyamu” ‒ os negros daquela zona não pronunciavam os erres e trocavam-nos por eles ‒ bem como de qualquer massacre.

 

Porque a carta, dado o seu volume, não cabia em um só envelope, dividi-a por dois sobrescritos e meti-a na caixa do correio do aeroporto da Beira. Nenhum deles chegou à mão do destinatário.

Porque o meu pai também era militar, para confirmar a vigilância e abertura da minha correspondência, pelo correio militar e oficial, alertei-o para a necessidade de observar bem os sobrescritos e ver se apresentavam sinais de violação. Todos eram abertos de modo fácil de identificar. Eu estava referenciado na PIDE/DGS, da cidade da Beira, e assim fiquei até ao 25 de Abril de 1974; um ano para me “fazerem a folha” com a agravante de que colaborava com jornais de província portugueses e na emissora local tinha um programa de política internacional.

 

Afinal, tudo terá, julgo eu, começado por uma carta remetida a alguém já alvo de observação pela polícia política, justificando a minha hipótese quanto ao funcionamento da censura postal.