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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

21.08.19

A guerra em África: As digressões de artistas


Luís Alves de Fraga

 

Seria estultícia minha fazer passar em desfile, num mero apontamento de poucas linhas, as digressões de artistas, em especial de cançonetistas, que se fizeram “para as tropas” nos três teatros de operações. O que pretendo é “abrir” uma janela sobre um possível campo de investigação para investigadores mais jovens se debruçarem e analisarem com cautela esta acção levada a cabo, umas vezes, pela máquina propagandística fascista e, outras, pelos comandos militares responsáveis.

 

Durante a 2.ª Guerra Mundial surgiu a moda ‒ especialmente desenvolvida pelos EUA ‒ de levar até junto das tropas artistas com algum renome na canção, no teatro e no cinema. Este tipo de “apoio moral” dado aos militares continuou durante a guerra da Coreia e, mais tarde, na do Vietnam.

Deve dizer-se que, no caso das tropas dos EUA, estas digressões chegaram, algumas vezes, e no que respeita a artistas de pequena projecção, a ser feitas junto dos militares empenhados em combate. Contudo, reservavam-se os espectáculos com artistas de maior “grandeza” para aqueles efectivos que se posicionavam bem mais recuados em relação ao inimigo.

 

Julgo que, na guerra colonial, não houve digressões de artistas nas zonas mais perigosas; os operadores de televisão foram a unidades destacadas no mato para, no Natal, recolher curtas mensagens dos soldados ‒ quase analfabetos que desejavam «Feliz Natal e muitas “propriedades”» aos seus familiares ‒ passadas, depois, na RTP em horários menos “nobres”. Quase tudo, no Portugal fascista de Salazar, era “pequenino”, por isso, não se corriam riscos significativos nem se movimentava muito dinheiro para elevar o moral das tropas combatentes.

Em alguns aquartelamentos junto de povoações onde habitavam europeus e raras famílias de graduados militares, ao que julgo saber, havia, de quando em vez, sessões de “cinema”, passando-se fitas antigas e devidamente seleccionadas; depois de acabar a sessão “oficial” havia uma projecção “particular” para os soldados onde, à socapa, se exibia uma pequena fita pornográfica de desenhos animados! Era uma minguada compensação para os sofrimentos e agruras das colunas automóveis pelos trilhos do mato onde podia haver uma mina inesperada que punha fim a vidas jovens ao serviço de uma causa para eles pouco importante.

 

Recordo-me de, em 1968, na cidade da Beira, Moçambique, ter estado em digressão, parece-me, só para espectáculos nas bases e aeródromos da Força Aérea, uma cançonetista, já nessa época em começo de declínio, chamada Maria de Lurdes Resende. Tratava-se de uma senhora, mãe de família, que se havia notabilizado uma dezena de anos antes com as canções “Alcobaça” e “Feia”. Servia-lhe de companhia a esposa do general comandante da Região Aérea.

Por essa altura, ainda se acreditava, em alguns meios, ser possível uma solução militar para a questão ultramarina.

 

No ano de 1973, também na Beira, mas na sede do Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas n.º 31, o comando conseguiu organizar, para os militares daquela unidade, um show, vindo directamente de um dos cabarés da cidade, onde a principal atracção era um prolongado striptease feito por uma escultural jovem proveniente não sei de que país.

A guerra, naquele teatro de operações, já estava a assumir contornos de derrota em espaço de tempo bastante curto ‒ havia infiltração de guerrilheiros a cem quilómetros da cidade; para a província da Zambézia previam-se acções bélicas num futuro muito próximo.

 

Não sei se na acção de moralização das tropas a combater em África o fascismo português investiu grande coisa, mas, se o não fez, foi coerente com a sua política de sempre: pedir os máximos sacrifícios e dar ao povo o mínimo possível.