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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

29.07.19

A guerra em África: “Apanhados do clima”


Luís Alves de Fraga

 

O stress pós-traumático em vítimas da guerra colonial está, segundo julgo, bastante bem definido. Vou dedicar-lhe um breve apontamento, um dia destes. Contudo, houve um “fenómeno” ‒ se é que assim lhe posso chamar ‒ com contornos muito diferentes, mas também de natureza psíquica, conhecido entre os militares por uma expressão que, admito, nasceu em África: “apanhado do clima”. O que era isto, como e quando surgia?

 

Tal como já relatei em apontamento anterior, nem todos os militares ‒ de soldado a oficial ‒ estavam destinados a fazer comissões no mato e sujeitos aos desgastes resultantes do constante risco de vida, nem sequer aos incómodos da vida em um aquartelamento precário, com pouca água, alimentação deficiente, restrições de saída, noites sobressaltadas e calor ou frio consoante a altitude. Havia muitos militares que ficavam em cidades ‒ enfim, algumas delas só nominalmente o eram, mas eram-no! ‒ em serviços de apoio ou em estados-maiores ou departamentos em tudo a eles semelhantes. Sobre estes últimos, só em casos muito raros e específicos ‒ por exemplo, pessoal do serviço de saúde mal preparado para conviver com situações onde alguns feridos eram mais destroços de seres humanos, que humanos com aspecto de humanos ‒ se podia admitir o espoletar de situações pós-traumáticas. No entanto, alguma coisa acontecia que lhes alterava o comportamento normal. Não se tratava de depressões, nem de algo desse tipo, mas antes de comportamentos descontrolados, entre a alegria excessiva e a zanga repentina, entre um discurso coerente seguido de incoerências, às vezes, impropérios usados diante de superiores hierárquicos, pequenas revoltas disciplinares e más disposições ou explosões de mau humor com amigos, camaradas e, até, com familiares.

Tudo isto começava a manifestar-se ao fim de uns meses de permanência em África, não com todos os militares, mas com alguns. Tive oportunidade de viver, eu mesmo, situações destas e de acompanhá-las entre militares meus companheiros.

 

A “malta” rapidamente encontrou uma expressão pouco clínica para designar estes comportamentos com contornos de anormalidade: “apanhados do clima”!

Na verdade, nada disto tinha a ver com o estado atmosférico! Se tivesse, muitos colonos seriam “apanhados do clima” e, todavia, não estavam nem mostravam tais sintomas. Até porque, nem todos os militares, como já disse, independentemente do posto, reagiam da mesma forma.

 

Na nossa juventude, descuidados com o nosso estado físico ou psíquico, nada disto nos dava cuidado. Os graduados desculpavam aos subordinados algumas “irresponsabilidades” comportamentais, com um encolher de ombros acompanhado da tal expressão: «Está apanhado do clima»! Gerou-se, assim, uma cadeia de conformidade e desculpa com uma certa forma de estar, aliás passageira, quase sempre.

Mas, hoje, passados tantos anos, interrogo-me sobre esta alteração de comportamentos. O que justificava o “apanhado do clima”?

 

Estando o combate longe da zona logística sobre alguns serviços nesta integrados fazia-se sentir a pressão do trabalho, a velocidade, a exigência, a responsabilidade e a consciência de que uma falha aqui poderia ter graves repercussões lá à frente. Havia um clima de tensão, de nervosismo, de que faltava sempre qualquer coisa. Era por causa desse “clima” que se ficava “apanhado”!

 

Acumulava-se ao “clima” de tensão anteriormente descrito a contagem decrescente do tempo para regressar a Portugal, a qual se tornava mais penosa quanto menos meses faltavam para o fim da comissão. E estava sempre pendente a possibilidade de, colocado num serviço de “retaguarda”, ter de saltar, por qualquer motivo, para uma zona de maior envolvimento nas operações. Isto, junto ao que deixei dito, gerava uma maior tendência para ficar “apanhado do clima”.

 

Este efeito colateral da guerra acabava passadas algumas semanas ou, nos casos mais relutantes, um ou dois meses, após o regresso a Portugal. Depois, depois já cá, ríamo-nos dos sentimentos vividos, das preocupações, sem qualquer consciência de que uma coisa tão “simples” era, também, um efeito da guerra.