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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

22.07.19

A guerra em África: amores destroçados


Luís Alves de Fraga

 

Pelo menos, nas décadas de 50 e 60 do século passado, em Portugal, na Europa e se calhar no âmbito da, então, chamada “civilização ocidental”, a juventude “acabava” por volta dos vinte e um anos, mais coisa, menos coisa; em muitos casos, “acabava” bem mais cedo. Isto quer dizer que os jovens ‒ do sexo masculino e feminino ‒ estavam dispostos a assumir responsabilidades de gente adulta mal entravam no mundo do trabalho. Dito de outra maneira, para toda a gente compreender, começavam-se namoros “sérios” ‒ com intenção de casar ‒ quando se ganhava dinheiro para sair de casa dos pais, sustentar uma família, arrendar uma habitação e poder pensar em ter descendência.

 

Nos rapazes, esta atitude era assumida como uma forma de ganhar respeitabilidade social, de maioridade cívica e familiar, pois viver debaixo do telhado paterno constituía, invariavelmente, obrigação de aceitar as “regras” estabelecidas pela autoridade dos progenitores; nas meninas, casar, julgavam, passava por um processo de obter maior liberdade, pois, entre obedecer ao pai e à mãe e compartilhar “direitos” com o marido, era preferível a segunda hipótese, nem sempre verdadeira. Claro que, sobre esta explicação generalista, sobrepunha-se uma outra, subsidiária ou não desta, que posso, para simplificar, designar por “tradição”. O casamento jovem era tradicional.

 

O começo da guerra em África, em 1961, contribuiu para o início da alteração dos “hábitos” enunciados anteriormente, umas vezes, acelerando todo o processo de autonomia familiar, noutras, retardando-o. Vejamos, um pouco ‒ e só um pouco ‒ como tudo isto se foi modificando.

 

Namoros de aldeia, começados quase durante a frequência da instrução primária, eram coisa comum naqueles tempos de gente a viver lá nos confins de Portugal, onde a electricidade não chegava e a estrada próxima ficava distante meias horas de caminho.

Ele ia para a guerra e não queria deixar a namorada, em idade casadoira, para ser cobiçada por outro mais atrevido do lugar ou da aldeia ou vila cercana. Ela queria ter casa, um telhado a que chamasse seu, porque, das portas para dentro, passava a ser a rainha, única senhora da sua vontade e ‒ quem sabe? ‒ dos seus desejos.

Casavam antes do embarque. Era uma alegria cheia de lágrimas e suspiros, angústias e esperanças. Os meses passavam e ele escrevia cartas mal-alinhavadas; ela ou ficava fiel, esperando-o sem mácula, porque as vozes da aldeia prendiam mais do que grades ou arame farpado, ou partia para a vila, para a cidade, tentar emprego mais remunerado sem o esforço de andar de enxada na mão e a guardar as cabras. E lá, ainda fresca e rosada com as cores louçãs do campo, as tentações eram mais do que muitas e a saudade de um carinho, retardado pelo uso de uma G3, motivavam-na para a infidelidade. Tudo, então, podia acontecer. E ele, longe de imaginar, porque alguém pressuroso lhe dava a notícia, ou rompia, com uma escrita analfabeta, o casamento, que jamais seria igual, ou enfiava um tiro na cabeça ou deixava-se morrer com vergonha e desgosto ou, alternativa derradeira, voltava desmiolado, incapaz de regressar à aldeia, deixando-se ficar ao deus dará, na cidade grande, à procura de emprego e pronto a maltratar uma nova companheira, que pagava as culpas que não tinha. Ele, dir-se-ia depois, sofria de stress pós-traumático. E não é que sofria mesmo!

 

Mas, muitas vezes, a sensatez própria dos mais instruídos, mais cautelosos, mais ambiciosos, levava-os a deixarem para o regresso o desejado casamento. Escreviam-se com frequência ‒ a frequência das voltas do SPM ‒ e as promessas de amor cresciam com a saudade, enquanto cresciam os planos para o casório. Ele juntava quanto podia dos dinheiros pagos pelo Estado em troca do suor vertido, da saudade e, quase sempre, dos sacrifícios e riscos vividos. Um dia, um dia malfadado, chegava a carta a derribar esperanças, sonhos, desejos: «Olha, tenho de ser sincera contigo, já não aguento mais. Estou apaixonada por outro e vamos casar». A dor no estômago, que o atormentava há já tempos, aumentava abruptamente. Era agora uma úlcera nervosa ou não. E a vergonha caía-lhe em cima mais pesada que todas as mochilas do batalhão. Voltar, para quê? Ou, então, passar a olhar todas as mulheres ‒ brancas ou negras ‒ com a moralidade daquela em que acreditara: umas putas! E isso, se passasse, só passava muitos anos depois.

Houve aqueles que calavam vinganças, sofrimentos, recalcando silêncios, mas, quando se deitavam, à noite, ao lado da mulher sacrificada pela guerra, dormiam com ela e com a desconfiança de uma, duas, várias infidelidades do tempo em que, em África, fizeram a guerra, no mato ou na cidade.

 

E quantos casamentos acabaram lá, nas colónias, quando eles, oficiais ou sargentos, levaram as esposas e as tinham de deixar na cidade, na messe ou no apartamento alugado, quando iam de marcha para o mato, ao encontro com as minas e as emboscadas? Quantas, ou consumidas pela saudade ou pelo medo e, acima de tudo, pela solidão, aceitaram romances imaginados que, na cabeça do atrevido, não passavam de mais uma aventura? Quantas impuseram um regresso antecipado, para acabar um casamento destroçado?

 

E tudo isto poderia ter acontecido sem haver guerra, mas tudo isto aconteceu porque houve guerra colonial.

Tratando-se de dramas muito íntimos, estes amores destroçados, merecem um historiador cauteloso antes que os factos passem ao esquecimento ou os documentos desapareçam. Os anos que tenho ‒ com grande pena minha ‒ não me permitem nem me dão forças para meter ombros à tarefa; deixo a ideia esboçada nos seus contornos para jovens estudiosos e interessados no conhecimento das mentalidades ainda recentes se embrenharem neste emaranhado de sentimentos feridos e, com o recato e a ponderação que se impõe à História, contarem e explicarem como foi.