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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

13.07.19

A guerra em África: a Manutenção Militar


Luís Alves de Fraga

 

A Manutenção Militar era ‒ entre 1961 e 1974 ‒ em simultâneo, um estabelecimento fabril do Exército, um grande armazenista e um grande fornecedor daquele ramo das forças armadas e, supletivamente, dos outros dois. Possuía autonomia administrativa e financeira, ou seja, tendo orçamento próprio, só dependia do ministro do Exército para a prática de determinados actos bem definidos. Competia-lhe o fabrico e fornecimento de pão, bolachas e massas pelas unidades do Exército metropolitano, para além de outros géneros alimentícios que, por serem comprados por grosso e nos produtores, ficavam por preços bastante módicos.

 

Depois do começo da guerra, a sua acção, através de delegações nas principais colónias, estendeu-se a Angola, Guiné e Moçambique; por isso, ganhou importância e dimensão extraordinárias no apoio às tropas combatentes. A maior dificuldade para o desempenho da sua missão era a imensidão da linha de abastecimento logístico entre Portugal e cada um dos três teatros de operações.

 

Na Guiné, era muito difícil encontrarem-se géneros frescos, nomeadamente vegetais, batatas, frutas não tropicais, ocorrendo que, com o agravamento das operações, o consumo de carne de caça foi caindo até se reduzir a quase nada. Para além do arroz, o acompanhamento para todo e qualquer alimento, limitava-se aos variados tipo de massas que a Manutenção Militar conseguia fazer chegar aos aquartelamentos no mato e mesmo em Bissau. Consumiam-se, em quantidades significativas ‒ próximas da exaustão ‒ conservas de peixe e de carne idas de Portugal. Algumas vezes, era possível comer bacalhau (para não se estragar com a humidade, foi “inventado”, na Manutenção Militar, um sistema de embalagem em folha de flandres com extracção do ar e selagem com pingos de solda) com… massa cozida!

 

Nos restantes teatros de operações ‒ Angola e Moçambique ‒, quando em aquartelamentos fixos, era possível o abastecimento de produtos alimentares frescos por aquisição directa no local, sendo que os restantes componentes das refeições estavam a cargo da Manutenção Militar. Isso incluía desde o vinho ao azeite, passando pelo feijão, grão e as, sempre presentes, conservas de peixe e de carne.

 

Ainda que sistematicamente “condenada”, a Manutenção Militar fez esforços hercúleos para criar as melhores condições de alimentação às tropas destacadas ao longo dos territórios coloniais, estivessem em zona de combate ou não. A “marca” MM (Manutenção Militar) foi detestada pelos combatentes, mas, sem ela, a resistência, a sobrevivência e a própria vida teriam sido impossíveis.

 

Mas, onde os técnicos e os oficiais do Serviço de Administração Militar mais se esforçaram por acertar e alcançar resultados aceitáveis, foi na concepção e na variedade possível das, infelizmente famosas, “rações de combate”. Estas tinham de conter o número de calorias necessárias à conservação do combatente com força física e capacidade de resistência, sendo suficientemente leves para serem transportadas pelos homens e suficientemente variadas para evitar o enjoo, o nojo, a aversão, quando se impunha a obrigação de serem consumidas dias seguidos, quantas vezes, semanas a fio.

Nas tais rações havia um pouco de tudo: leite condensado, doces, sopas em pó para o caso de poderem ser “cozinhadas”, conservas de sardinha, de atum, de carne, bolachas, às vezes, frutas cristalizadas, marmelada e comprimidos para desinfecção da água para a tornar potável, ainda que com sabores indescritíveis, e quantidades de sal para evitar a desidratação.

 

Sabemos hoje que muitas gastrites crónicas foram consequência do exagerado consumo das rações de combate ou ração individual do combatente. Mas, se alguma culpa deve ser assacada não é, de certeza, à Manutenção Militar, mas a quem impôs aquela guerra de desgaste a uma geração de jovens cidadãos que, sem perceber o motivo, combatiam guerrilheiros, quase sempre, esfomeados ‒ comiam os restos das rações de combate abandonados no mato pelos soldados portugueses ‒, animados somente pelo ideal de ganharem para si e para os seus o direito a disporem da sua vida e do seu futuro na liberdade capazes de construir.