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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

16.08.19

A guerra em África: a língua portuguesa nas colónias


Luís Alves de Fraga

 

Neste meu debruçar sobre várias problemáticas africanas durante o tempo da guerra colonial, tenho procurado chamar a atenção para perspectivas quase nunca abordadas pelos analistas e historiadores do conflito. Contudo, só uma visão globalizante da guerra e do tempo dela, nos pode permitir compreender os imensos “buracos” da esfarrapada “manta de mentiras” do Estado Novo sobre esses territórios onde se lutava para ascender à condição de Estados livres e independentes, talvez, quase pela certa, sem grande autonomia em relação aos maiores poderes políticos internacionais de então.

 

Hoje tentarei provar como a política de Salazar, afirmando ao mundo e à ONU que Portugal era uno do Minho a Timor, não passava de uma imensa patranha que, por ser tão grande, só os Portugueses mais ingénuos e ignaros em política e os colonos sonhadores, acreditavam nela.

 

Quando, em consequência da guerra, os militares passaram a ocupar o território das colónias, segundo uma quadrícula defensiva, evitando a “contaminação” das populações indígenas pela propaganda dos guerrilheiros, descobriram a imensa incongruência da propaganda fascista: a maioria dos autóctones desconhecia, de forma consistente, a língua portuguesa. Só alguns a falavam com pequena desenvoltura.

Ficou claro para o mais rústico soldado saído da mais recôndita aldeia da metrópole que “aquela gente” não era, nem podia ser, “tão portuguesa” como ele. Os negros eram negros e “ignorantes”, porque não falavam nem percebiam a língua dos homens idos de Portugal para esses matos distantes e esquecidos. A grande dúvida, raras vezes expressada, instalava-se na mente dos militares: “É para defender estes tipos, que aqui estou?”

 

Este panorama variava pouco da Guiné para Angola e, em especial, para Moçambique.

Na verdade, se é certo que em Bissau se falava português e, no mato, crioulo ‒ um idioma alternativo gerado havia muito tempo para entendimento entre as numerosas etnias existentes no escasso território ‒, já na vasta Angola, lá bem para o interior, existiam aldeias onde só um ou outro homem conseguia articular meia dúzia de vocábulos na língua de Camões; em Moçambique, não era preciso percorrer grandes distâncias, no mato, para o domínio da língua lusa, mesmo que mal pronunciada, fosse coisa rara; eventualmente, em certas regiões, era até mais possível encontrar quem “arranhasse” um inglês mascavado; vulgar era os europeus usarem palavras indígenas para se fazerem entender um pouco melhor.

 

Um quadro desta natureza diz muito mais do que foi a “não colonização” dos Portugueses do que foi a “colonização”!

Realmente, um pequeno Estado com a dimensão populacional do nosso e com a nossa falta de recursos financeiros e económicos dificilmente conseguiria fazer mais do que fez entre 1885 e 1975 ‒ estes noventa anos foram gastos entre guerras de pacificação e definição de dois modelos distintos de colonização: o dos republicanos ‒ marcados pelo pensamento de Norton de Matos ‒ e o dos fascistas. Se o primeiro previa todo o esforço para o rápido desenvolvimento económico e cultural das colónias e dos indígenas, o segundo empenhou-se, até muito tarde, em manter o desenvolvimento em “banho-maria” receoso de uma explosão capaz de fazer periclitar o instável e precário equilíbrio definido pelo fascismo e as suas concepções imperiais. Ao chegarmos ao ano de 1961, não havia, nas colónias, nem uma elite negra instruída nem uma classe média indígena economicamente capaz de rejeitar com facilidade a adesão aos paradigmas ideológicos de matriz marxista. E tudo teria sido diferente se tivesse havido uma real “ocupação efectiva” com a significativa presença de mestres-escola capazes de ensinar as primeiras letras e as principais palavras na língua portuguesa.

 

Tal trabalho está a ser agora, desde há quarenta anos, feito pelos Estados independentes da Guiné-Bissau, de Angola e de Moçambique, porque sabem, com muita segurança, que o único processo de, a médio ou longo prazo, alcançar um estatuto nacional, com grandeza de projecto político, passa pela adopção do idioma português como língua única, evitando, deste modo, as rupturas étnicas que a imposição de uma outra língua nativa provocaria, pois iria corresponder a uma nova “colonização” inaceitável pelos povos com idiomas preteridos. Assim, deste modo, usando a língua do antigo colonizador, ficam todos “sujeitos” a uma “subordinação” que não subjuga, não ofende, mas, pelo contrário, unifica.

 

Salazar e os seus próceres, afinal, não eram tão “brilhantes” como a propaganda nos tentou impingir. Se o fossem teriam, pelo menos, procurado levar a língua portuguesa a todos os mais remotos lugares do império que eles queriam uno e eterno.