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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

12.07.19

A guerra em África: a Força Aérea


Luís Alves de Fraga

 

Em 2004 ‒ há quinze anos precisos ‒ publiquei um livro intitulado “A Força Aérea na Guerra em África: Angola, Guiné e Moçambique: 1961-1974”. Na altura, não havia nada escrito sobre o esforço deste ramo das forças armadas na guerra colonial. Procurei fazer, então, a História possível, baseado na bibliografia publicada ao longo dos anos e na documentação existente e ainda não tratada e classificada do Arquivo Histórico da Força Aérea. Felizmente, depois dessa data, já se publicaram mais alguns trabalhos dentro desta temática, dos quais destaco a tese de mestrado de Manuel Artur Correia Alves da Costa, apresentada no ISCTE.

Não vou aqui repetir dados já publicados, mas procurarei fazer a síntese do que foi a participação da Força Aérea no conflito africano.

 

Ao começarem as hostilidades, em Angola, no ano de 1961, a Força Aérea ‒ dependente de infra-estruturas ainda que básicas, no solo ‒ só estava capaz de operar a partir de Luanda, havendo em construção um aeródromo no Negage. Os meios aéreos eram poucos, tendo-se pedido, a título particular, a cedência de alguns T6 ao então Congo Francês para com eles poder dar apoio às forças terrestres. Não havia possibilidades de estabelecer comunicações rádio entre o solo e as aeronaves, devido à incompatibilidade de aparelhos de transmissão. Era o caos absoluto! Nas mesmas circunstâncias estavam a Guiné e Moçambique.

Salazar, com as cautelas postas nas poupanças, havia descurado todas medidas de defesa, fosse qual fosse a ameaça. Esta situação era, no mínimo, risível, ridícula e obtusa, tendo em consideração a afirmação política da existência de uma unidade nacional espalhada por vários continentes. Por aqui se demonstra a mentira daquilo que se apregoava aos quatro ventos como sendo uma verdade.

 

O esforço exigido à Força Aérea ‒ independente, como ramo das forças armadas, desde 1952 ‒ foi brutal; por um lado havia que criar pistas para aterrarem e levantarem as aeronaves mais úteis ao combate e, por outro, havia que a dotar de meios aéreos apropriados para o tipo de guerra a desenvolver e, mais ainda, havia que deslocar para os três teatros de operações pessoal e material de apoio, de modo a possibilitar a acção sem dificuldades e sem interrupções. Uma das maiores carências foi a do municiamento das aeronaves, pois havia falta de uma produção constante e continuada.

 

Na primeira fase da guerra ‒ de 1961 a 1966 ‒ opera-se com recurso a helicópteros de pequena capacidade de transportes; nos anos seguintes, a frota aumenta significativamente, tornando-se a aeronave mais útil em todos os teatros de operações: colocação de tropas em posição, evacuação de feridos, cobertura de fogo com canhão (MG – 20 mm), reconhecimento e transporte indiferenciado.

 

Houve díspares tipos de aeronaves nos diferentes teatros de operações: os Fiat-G-91 na Guiné e em Moçambique, os F-84 e os B-26 em Angola, os PV2 em Angola e Moçambique, os P2V5 em Angola e, nas três colónias, os célebres T6 e os DO-27. Escuso-me de referir os aviões de transporte, embora, internamente se usassem os Nord-Atlas e os C-47 Dakota.

 

Do ponto de vista da intranquilidade o teatro de operações onde ela se notou mais foi na Guiné, porque, desde muito cedo, houve redutos no sul do território nos quais o PAIGC instalou baterias de metralhadoras e peças antiaéreas, gerando áreas onde só era possível a existência de superioridade aérea e não de supremacia, como foi geral tanto em Angola como em Moçambique, com excepção do planalto de Mueda, onde, logo de início, a resistência da FRELIMO se fez sentir de modo cáustico.

 

Posso garantir que, enquanto a supremacia aérea foi quase total, se manteve a convicção, entre militares e civis, da possibilidade de prolongamento das operações de campanha por tempo indeterminado. No entanto, quando, nos teatros de operações de Moçambique e da Guiné, foram introduzidos os mísseis SAM7, deu-se uma reviravolta na disposição e no moral de todas as tropas combatentes, a começar nos da Força Aérea, pois, sendo, teoricamente, possível continuar a voar ‒ cumprindo rigorosos limites de segurança próprios para evitar o abate ‒ deixava-se de, na prática, poder usar tanto os helicópteros como os DO27 em operações de evacuação, abastecimento, apoio de fogo, para além de estarem colocadas em grande risco as manobras de aproximação às pistas de aterragem de todas as aeronaves. As características deste tipo de míssil foram suficientes para ditar uma mudança geral de comportamento, em especial entre as tropas terrestres, que pressentiram a grande alteração que se estava a delinear.

 

Em conclusão, com base no que vivi e no que estudei e investiguei, posso dizer, sem grande receio de errar, que a Força Aérea foi determinante para o prolongamento da guerra e para a sua finalização abrupta.