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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

10.07.19

A guerra em África: a Armada


Luís Alves de Fraga

 

Por desconhecimento, muitas vezes, e por desleixo, noutras, tem-se deixado de lado o contributo da Marinha de Guerra na guerra em África. O realce e a importância das operações têm caído, quase sempre, nas forças terrestres. Todavia, a Armada contribuiu muito para o esforço militar na luta ilegítima travada contra a guerrilha.

 

Para além da vigilância costeira em Angola e Moçambique, evitando desembarque de armamento ao longo do litoral daqueles territórios, através de uma acção dissuasora, a Armada teve um papel de relevo e significativo na Guiné e no lago Niassa, em Moçambique.

 

Foram os fuzileiros navais quem patrulhou os numerosos rios e braços de mar da Guiné. Eram eles que faziam os abastecimentos dos aquartelamentos mais próximos das áreas fluviais e coube-lhes acções anfíbias sobre zonas onde os guerrilheiros estavam instalados. Também navios patrulhas vigiavam toda a costa do território para impedir a movimentação naval ao PAIGC.

 

Tratando-se de tropas especiais, os fuzileiros, ‒ com um tipo de preparação física e de combate muito mais apurada do que as do chamado contingente geral ‒ no teatro de operações da Guiné, dependentes do comando-chefe, eram utilizadas em missões de alto risco, em terra, comportando-se como tropa de infantaria, muito embora mantivessem o garbo e a vaidade de serem marinheiros. Correram riscos em nada inferiores aos dos seus camaradas do Exército.

Algumas vezes, a rivalidade entre tropas especiais ‒ fuzileiros, pára-quedistas e comandos ‒ gerou confrontos físicos entre eles e, chegou a haver situações de troca de tiros, que obrigaram à intervenção superior.

Claro que tal despique ‒ não provocado pelos graduados que enquadravam estas tropas ‒ era muito vantajoso, do ponto de vista político, porque ajudava a alienar os combatentes, evitando-lhes tomar consciência da natureza da guerra em que eram utilizados. Esta alienação veio claramente ao de cima mal a guerra acabou e, em Portugal, se iniciou o processo de democratização: todas as tropas especiais foram, de imediato, instrumentalizadas por grupos políticos de diferentes quadrantes, explorando-lhes a força, o respeito que impunham e, mais do que tudo, um “patriotismo” desfocado da realidade e bastamente manipulável.

 

No lago Niassa, partindo da base naval de Metangula, os fuzileiros actuavam, usando os seus característicos meios de desembarque ‒ as célebres lanchas “Zebro” ‒ rápidos, capazes de colocar os combatentes em terra seca para passagem à acção imediata.

Nesse lago, também a Marinha teve navios patrulhas de pequenas dimensões, mas com capacidade para abrir fogo sobre alvos suspeitos em terra.

 

Tem de se creditar à Armada ‒ no que teve de bom e no que teve de criticável ‒ a célebre operação “Mar Verde”, concebida e posta em execução por um dos mais polémicos oficiais da Marinha ‒ Alpoim Calvão ‒, que consistiu num golpe de mão sobre a capital da Guiné-Conacri com várias finalidades, nomeadamente, desencadear um golpe de estado contra o poder constituído, fazendo o PAIGC perder um dos seus melhores aliados. A operação falhou em quase todos os objectivos, sendo cumprido um, que teve efeitos morais sobre as tropas portuguesas: a libertação dos militares prisioneiros do PAIGC.

 

Por tudo o que deixo dito, percebe-se que dirigentes de uma guerra de guerrilha, ao obrigar, com empenhamento de poucos homens e pouco armamento, as forças armadas regulares de um Estado, a mobilizar meios caros, mais ou menos sofisticados, e muitos militares, estão mais próximos da vitória do que o poder instituído, seja ele legal e legítimo ou legal e ilegítimo como foi o caso do poder fascista português. Em Lisboa, em Março de 1961, a vitória militar estava condenada, quando se optou pela via da guerra sem fim à vista.