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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

30.08.19

A guerra colonial: Deficientes das Forças Armadas


Luís Alves de Fraga

 

Para efeitos deste apontamento, não me preocupa nem a definição de deficiente das Forças Armadas, nem o grau de invalidez estabelecido na legislação em vigor. Interessa-me, exclusivamente, tentar olhar “por cima” a situação desses homens, veteranos de guerra, em especial os da guerra colonial, para, por um lado, perceber o que o Estado tem feito por eles e como os encara no seu dia-a-dia, e, por outro, espelhar o sentimento da nação quanto aos seus deficientes militares.

Excluo do conceito de deficiente das Forças Armadas (FFAA) todos os que sofrem de PSPT, por se tratar de uma forma específica de insuficiência não visível, mas acumulável, em alguns casos, com deficiência física.

 

Convirá, para que cada um de nós tome consciência do que é ser deficiente das FFAA, perceber que estes veteranos da guerra colonial sempre foram escondidos da sociedade civil. No passado, antes de 25 Abril de 1974, quer nas capitais das colónias quer em Lisboa, os hospitais onde eram tratados ficavam longe das vistas das populações. O fascismo não queria mostrar os destroços humanos que a guerra fazia. E não se pense que se tratava só de estropiados pelas armas de fogo; eram também os que sofriam acidentes de viação no mato e nas cidades ‒ recordo uma viatura de soldados para-quedistas do BCP-31, que capotou na zona da Gorongosa, em 1973, da qual restaram vivos um ou dois homens paraplégicos. Toda essa gente acabava por ser evacuada, em aviões especiais, para Lisboa e aqui recebiam as próteses ‒ quase todas encomendadas à República Federal da Alemanha ‒ que, mais ou menos, iriam, nos primeiros anos, suprir a falta dos membros amputados. Depois de dados como recuperados eram, sub-repticiamente, recambiados para as suas terras onde passavam a receber uma magra pensão de sobrevivência. Aos poucos foram beneficiando de algumas pequenas regalias sociais: redução nos impostos, isenção de propinas para os filhos estudantes, apoios na aquisição de meios de locomoção. Mas, repare-se, que os valores das pensões se degradaram com a inflação e, alguns anos após a aquisição da deficiência, estes homens estavam na indigência, sem uma máquina montada para lhes dar as ajudas indispensáveis para se não sentirem como farrapos sociais.

 

Nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, nasceu a Associação dos Deficientes das FFAA, representando um imenso passo em frente na tomada de consciência colectiva de uma das mais negativas e significativas heranças da guerra colonial. Mas a voz perdeu força, pois a dispersão geográfica dos deficientes, impunha uma outra abordagem por parte do Estado na protecção daqueles que deixaram partes de si nos territórios em guerra. O estatuto de veterano de guerra obrigava ao estender de benefícios materiais, mas, mais do que esses, aos de apoio psicológico, pois uma amputação em jovem tem, do ponto de vista psíquico, um peso relativamente leve que, com o rodar dos anos, acaba por ser um pesadelo e, da deficiência física, salta-se, com imensa facilidade, para a deficiência psicológica.

 

E nós, cidadãos de aparência saudável, não temos consciência do que é ser deficiente de uma guerra da qual não tivemos responsabilidade, nem vontade de nela participar, nem de vir de lá com um aleijão quase irremediável. Nós não sabemos o que é acordar de noite, porque se está novamente a reviver o trauma do acidente, dos tratamentos, das operações cirúrgicas, das experiências ortopédicas, dos olhares de vizinhos, de filhos, de mulheres, de familiares e, acima de tudo, da dúvida de que nos aceitam como somos ou porque já só têm o dever, a obrigação, de nos aceitar.

 

Os nossos veteranos de guerra, deficientes físicos, estão escondidos e são escondidos como se tivéssemos vergonha do seu sacrifício, das mazelas, das suas dificuldades.

Os jovens, não só os que já não sabem que houve uma guerra, mas os que, ainda dela sabendo, lhe desconhecem toda a extensão, não respeitam nem conseguem respeitar os nossos deficientes, os nossos veteranos porque, independentemente, da idade, da cultura, da graduação militar, eles merecem o máximo, todo, o respeito de todos nós, pois, se não deram a vida, deram partes de si próprios, continuando a subir um tormentoso calvário, para que se mantivesse uma guerra injusta, que um poder político ignóbil, por razões contranatura e ao arrepio da História, mandou fazer para não ter fim à vista.

 

Cada vez são menos os nossos veteranos deficientes e cada vez é maior o silêncio à sua volta.