A guerra actual e as anteriores
Entre o armamento que se usa numa guerra e o modo como se faz a guerra há diferenças significativas.
Na verdade, o armamento evolui à velocidade das alterações das tecnologias. Há um exemplo esclarecedor quanto a este princípio: o avião.
Foi em 1903 que se conseguiu colocar a voar com autonomia um veículo aéreo mais pesado do que o ar. Em 1908 já se estavam a adoptar os primeiros aeroplanos no Exército francês e em 1914 já Churchill preconizava a criação de um serviço de aviação autónomo do Exército e da Marinha britânicos. Em 1912 já os espanhóis, na guerra contra Marrocos, lançavam granadas de biplanos sobre as tropas marroquinas. Nas manobras francesas de 1909 não se sabia se o aeroplano devia fazer fogo a partir do ar se devia aterrar à frente das unidades de infantaria para metralhar o inimigo, descolando de seguida ou se, simplesmente, servia para fazer reconhecimentos aéreos e regular o tiro da artilharia. Eram dúvidas sobre dúvidas, mas de uma coisa se tinha a certeza: o avião ia servir como arma de guerra.
Ora, lendo com atenção o que deixei dito antes, percebe-se que, qualquer inovação tecnológica, ao tentar dar-se-lhe aplicação no campo de batalha, partimos sempre dos conhecimentos das guerras anteriores até acertarmos com a melhor e verdadeira aplicação. E não foi por acaso que escolhi para exemplo o aeroplano, pois tratou-se, talvez, da inovação que, do ponto de vista tecnológico, mais progrediu em tão pouco tempo. Note-se que de uma simples estrutura de madeira e lona, em 1918, em 1945, ou seja, em vinte e sete anos depois, lançou a mais tremenda e mortífera arma que o homem inventou. Foram só vinte e sete anos! Todavia, hoje, setenta e sete anos depois do primeiro bombardeamento atómico, o avião continua a ter, na generalidade, as mesmas utilidades no campo de batalha.
A guerra russo-ucraniana começou por reproduzir, no plano táctico, os princípios já conhecidos de acordo com os armamentos usados: destruição imediata do poder aéreo do atacado por parte do agressor, cortar ou tentar cortar a cadeia logística do invadido, dividir a acção no terreno em várias frentes de modo a dispersar as forças da Ucrânia, mudando o escalonamento das prioridades aparentes, passando de objectivos que pareciam principais para secundários, através de recuos tácticos. Não houve nada de novo na acção militar russa.
Mas, independentemente de outras razões de ordem política e estratégica, este conflito bélico ‒ que deveria ter tido uma duração reduzida em tempo ‒ começou a arrastar-se e, de repente, uma Ucrânia capaz de opor uma resistência militar mediana até que se verificasse a viragem para uma governação que desse as garantias políticas e militares pretendidas por Moscovo, tornou-se numa Ucrânia super-resistente. Qual o segredo para esta transformação tão radical?
Certamente não posso aceitar que se deva ao discurso entusiástico e patriótico do presidente que, por profissão, conhece o modo de influenciar uma audiência até lhe arrancar palmas de alegria e satisfação ou lágrimas de compaixão. Não se deve à intoxicação da opinião pública ocidental quanto às barbáries deixadas para trás pelas tropas russas (barbáries em tudo iguais às de todas as guerras ou, até, talvez, em menor escala do que noutras mais antigas). Não!
O que justifica a resistência ‒ se eu preferisse os termos em voga e entrados na vulgar linguagem, diria resiliência ‒ das tropas ucranianas é o mesmo fenómeno que se verificou na Guerra Civil de Espanha por parte dos alemães: a introdução de novos armamentos, novas tácticas experimentais e informações de combate servidas em bandeja de prata ao estado-maior em Kiev.
Está claro, todos sabemos que essas informações, essas tácticas e esses armamentos vêm directamente dos EUA; são os satélites que dizem onde estão os quartéis-generais das tropas russas empenhadas, são os drones que vigiam, fora do alcance das armas convencionais, os movimentos no terreno, são os mísseis anticarro, são os novo drones de ataque ao solo com autodestruição, enfim, é uma nova panóplia de armas e correlativos que começam a definir os contornos da guerra futura.
Esta guerra começada segundo os trâmites das guerras do passado, está a mostrar-nos os novos limites da guerra de amanhã. E nisto incluem-se, também, os voluntários ou mercenários (usados em ambos os lados).
Quando olho para este conflito e percebo a manobra táctica da intoxicação propagandística associada às mudanças que referi, sinto-me ludibriado por ouvir exigências constantes de recurso a tribunais internacionais para condenação dos crimes e criminosos de guerra ‒ instrumentos do passado e de uma prática antiga ‒ quando o que se está a usar são novos modos de fazer a guerra. Modos experimentais e altamente letais, por serem de uma elevada eficiência e extraordinária eficácia. Não podemos querer, em simultâneo, sol na horta e chuva no nabal.