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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

08.11.22

A grande hipocrisia


Luís Alves de Fraga

 

No Egipto estão reunidos os representantes de quase todos os países do mundo para discutir a salvaguarda do planeta, que corre riscos climáticos muito sérios, devidos ao efeito de estufa.

Estamos todos, mas todos, perante o mais completo acto de hipocrisia que aconteceu nestes tempos mais próximos. E isso resulta do facto de quase todos os representantes baterem com a mão no peito em acto de contrição, prometendo para daqui a alguns anos acabar com as indústrias que poluem, que destroem a camada de ozono, que tornam irrespirável o ar que nos circunda, que provoca doenças graves, que, que, que… e todos nós sabermos da impossibilidade de mudar de paradigma produtivo se se mantiver o sistema de suprema concorrência e consumo. Isto é qualquer coisa como, por exemplo, querer acabar com o crescimento da população mundial e não se passar a usar um sistema de castração masculino e feminino, que impeça a reprodução, pelo menos, em certas percentagens. O exemplo é propositadamente chocante para se perceber a importância da mudança de modelo produtivo.

 

Vamos lá tentar explicar que, enquanto houver concorrência entre fabricantes e consumidores, os níveis de poluição e de alteração climática continuarão a ser os mesmos ou pouco menos ou pouco mais, porque a nossa sociedade visa especialmente o consumo e este tem mecanismos que convém serem olhados para serem desmistificados.

O consumo passa, necessariamente, pela compra dos produtos e estamos a falar de produtos não essenciais à vida. Ora, o que mais abunda para ser comprado e vendido são estes últimos, os não essenciais.

E como é que se consegue essa abundância, que tem de ter, na origem, uma necessidade? Através de duas acções conjugadas: a mudança de aspecto ou de modelo do bem de consumo e o aparente aumento da necessidade ou seja, da moda e da publicidade.

 

Por mais voltas que se dê, transformando a energia “suja” em energia “limpa”, nunca se conseguirá acabar com um ciclo de produção que rapidamente fica obsoleta e carece de ser substituída. Tal substituição dá origem ao aumento de desperdício, de lixo que, sejam quais forem os processos, jamais se conseguirá a total reciclagem. É ver as sobras de consumo que são transferidas dos países ricos para os países pobres e percebe-se que estamos perante um flagelo.

Façam as cimeiras sobre as mudanças climáticas que quiserem e nada mudará, porque se está a “atacar” o problema pelo lado errado.

 

As políticas a adoptar têm de ser orientadas para a redução da mudança e para o fim da criação de necessidades ou seja, tem de se passar a fabricar para durar (o que equivale a dizer, para resistir ao desgaste) e tem de se acabar com a publicidade (o que equivale a dizer, acabar com a invenção de novas necessidades).

Está provado que as inovações tecnológicas de um mesmo produto só têm interesse para gerar a sensação no consumidor que ele está a ser ultrapassado e que isso é mau, que isso é estar fora dos padrões sociais.

Nos séculos XIX e XX o nível de desperdício era muito mais reduzido, porque se fabricava para durar e a moda (todo o tipo de moda e não só a moda no vestuário) variava com muito menos frequência do que na actualidade; um automóvel era feito para durar vinte anos ou mais; um aparelho de radiotelefonia avariava-se e reparava-se, não se deitava fora; uns sapatos não se destinavam a uma só estação do ano, nem a um só ano; uma máquina fotográfica existia para durar uma vida; o mesmo com os aparelhos telefónicos, as mobílias, as casas, os adornos e a decoração de interiores; as meias de homem eram cosidas; as de senhora (as chamadas “de vidro”) quando caía uma malha havia quem a repusesse; e tantas, mas tantas, formas de manter em uso o que se tinha em vez de deitar fora.

 

Se realmente se quer salvar o planeta inverta-se a ordem de “ataque” do problema. Não é no lado da produção que se deve mexer, é no modo de produção e no modo de venda ou de consumo.

Claro que, uma tal mudança, conduz à alteração dos padrões a que a sociedade de consumo nos habituou, mas essa mudança vai beneficiar mais gente e de uma forma mais saudável e mais duradoura. Acima de tudo, vai beneficiar a Terra, a tal “casa comum” de todos nós.

É tempo de acabar com hipocrisias e quem está ou esteve no Egipto, nessa cimeira pseudo salvadora, sabe perfeitamente o que acabei de escrever… Mas os interesses financeiros em jogo não permitem a salvação de todos nós.

Ao menos, tenhamos consciência de que estamos a ser enganados!

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