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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

11.06.21

A Espanha e o teste


Luís Alves de Fraga

 

Dizia o povo que, quando o cão é tinhoso todos lhe atiram pedras! Lembrei-me da frase por causa da inesperada notícia de, para passar a fronteira terrestre de Portugal para Espanha, Madrid ter exigido um teste ao Covid 19, ou prova de vacina ou prova de que já se tinha contraído a doença. Isto foi ontem. Caiu entre nós como uma bomba.

O nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, Santos Silva, parece-me, em declarações públicas abriu a porta a uma saída airosa do Governo vizinho: “Deve ter sido erro da Direcção Geral de Saúde de Espanha!”

Hoje de manhã, depois de uma intensa noite de conversações, confirmou-se o vaticínio de Santos Silva: Madrid culpou a sua DGS e repôs de imediato a situação anterior: mera vigilância das fronteiras. Claro, em Lisboa, fez-se saber que o nosso Governo havia ameaçado com medidas retaliatórias.

O interesse de toda esta tempestade num copo de água podia ficar por aqui e nós nunca iríamos perceber nada do que se passou no Governo de Madrid ou, pelo menos, passou na cabeça dos ou de alguns governantes espanhóis.

Porque este é um dos temas que entra naquilo que, em Estratégia, se chama interesse nacional, vou tentar analisá-lo à luz do que se pode deduzir (notem os meus críticos, eu digo deduzir, pois estas coisas passam por patamares de decisão onde nós, comuns cidadãos, não temos cabidela).

 

Primeiro ponto a analisar: o turismo espanhol.

Muitos de nós não imagina, mas o turismo interno em Espanha é imenso. Um fim-de-semana alargado leva espanhóis a sair de casa para irem visitar o seu país. Assim, esta indústria alimenta-se bem com a sua própria movimentação interna.

Depois, há muitos anos, em Espanha sabe-se gerir o turismo e os turistas ‒ sejam eles de que nacionalidade forem ‒ para os levarem a ver o que eles, os espanhóis, entendem que deve ser visto (eu disse: “eles, os espanhóis, entendem que deve ser visto”).

Ocorre, ainda, que as praias mediterrânicas de Espanha se enchem de espanhóis e de turistas europeus.

Segundo ponto a analisar: qual é, neste momento, o interesse espanhol.

Porque a Espanha não pôs os ovos todos no mesmo cesto, o turismo é uma boa fonte de rendimento, mas não é a única e, talvez, não seja a principal, embora esteja no grupo das mais importantes. Todavia, em função da pandemia, tudo o que vier à rede é peixe, donde, o interesse espanhol vai no sentido de fixar no seu território todo o turismo.

 

Passemos a Portugal.

O turismo, quase única fonte de boas receitas financeiras, com a atitude da Grã-Bretanha, está em crise profunda. Assim, qual é o interesse nacional português para este sector? Trazer para o país o maior número possível de turistas! Ora, como nós por cá só agora, parece, estamos dispostos a fazer grande turismo interno ‒ ainda que à custa de sacrifícios consequência dos nossos salários baixos ‒ temos de agarrar os turistas espanhóis, que, mesmo aqui ao lado, usufruem de salários bastante mais altos, gerando-lhes a possibilidade de dar um salto ao Porto, a Coimbra, a Lisboa e muitos saltos ao Algarve.

Nesta perspectiva, Portugal, através de uma fragilidade, é uma ameaça para Espanha, dado tornar-se um destino atractivo para os nuestros hermanos, reduzindo-lhes o turismo interno.

Solução de Madrid: impor a quem entra em Espanha, ido de Portugal, as medidas anunciadas. Medidas que não visavam os portugueses (para além das populações raianas), mas sim os seus nacionais que por cá passassem uns dias ou, se calhar, até uma poucas horas.

A isto chama-se estratégia, porque identifica ameaças, que pareciam impensáveis, e adopta medidas de defesa de interesses, que surgem como ameaças para quem só tem fragilidades.

 

Percebe-se que a diplomacia nacional não teve nem alcançou vitória nenhuma perante o Governo de Madrid, limitou-se a estender a mão e mendigar as esmolas turísticas dos espanhóis. Teria sido diferente se, como resposta imediata, pusesse em vigor medidas que fossem direitas a uma fragilidade espanhola e levassem Madrid a recuar. Mas isto só consegue fazer quem tem forças de alguma natureza!

 

Claro, tudo isto é uma dedução pessoal, desmascarável facilmente, embora só seja desmascarável quem anda mascarado…