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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

A dúvida

 

Passou, há dias, mais um aniversário sobre o 25 de Novembro de 1975 e há várias “verdades” para o explicar, daí que exista, no plano histórico, muita dúvida sobre o que foi, de facto, esse “golpe”.

 

Para se perceber o que quero dizer, basta recordar que, cem anos depois do “meteoro” político chamado Sidónio Pais ter morrido há quem o classifique, ainda, de germanófilo e outros, poucos, de aliadófilo e anglófilo. Faltam elementos claramente esclarecedores para a História poder contar a verdade. O mesmo acontece com o 25 de Novembro de 1975.

 

Sabemos, sem sombra de dúvida, que, nessa data, houve uma sucessão de golpes dentro do mesmo golpe. Sabemos que tem sido invocado o “golpe” conduzido, do ponto de vista táctico, por Ramalho Eanes/Jaime Neves/Mário Soares/PS como o golpe para repor a democracia e salvar Portugal de “cair” na “ditadura” soviética. Sabemos isso, mas desconhecemos se, na verdade, havia um golpe ou, sequer, uma tentativa de fazer virar a democracia alcançada em 25 de Abril de 1974 para a área ideológica comunista, liderada pelo PCP.

 

Foi muito conveniente ao PS, ao PPD e ao CDS que se acreditasse ser o PCP o elemento “perigoso” no processo de transição da ditadura salazarista para a democracia. Contudo, seria, de facto, o PCP o agrupamento político que instabilizava esse mesmo processo? Teria o PCP o apoio de Moscovo, se quisesse fazer uma viragem no equilíbrio europeu das forças “ocidentais” e “orientais”? Queria, simplesmente, o PCP possibilitar a verdadeira democratização em Portugal, garantindo que não havia um retrocesso para o fascismo? Quem é que o PCP “protegia” quando se faziam greves, alterações da ordem e manifestações populares? Quem é que, na realidade, desequilibrava todo o processo de democratização, o PCP ou os grupelhos políticos de extrema-esquerda?

 

Só as respostas cabais e correctas a estas e outras perguntas permitem, realmente, fazer a História verdadeira do 25 de Novembro de 1975. Claro que, na falta de documentos fidedignos e esclarecedores, teremos de nos socorrer de depoimentos isentos de envolvimento político nos acontecimentos, porque quem esteve a comandar os diferentes golpes dará deles a sua própria versão, a qual, jamais corresponde à totalidade dos factos. Mas, teremos, também, de preencher essa falta de informação com hipóteses o mais próximo possível de factos verosimilhantes. É assim que me arrisco a contraditar a versão tida como “oficial”, pois julgo que nunca o PCP, Álvaro Cunhal ou fosse quem fosse responsável e consciente no âmbito do comité central, terá defendido, mesmo que em tese, a viragem para o comunismo em Portugal, pois sabia que nem Moscovo concordava, nem daria apoio e, em pouco tempo, verificar-se-ia a “vacinação” semelhante à que ocorreu no Chile de Allende.

 

Claro que esta versão, como hipótese histórica, “escangalha” a “fotografia” de alguns dos “heróis” do 25 de Novembro. Seria mais fácil, julgo eu, admitir-se que o golpe de então teve como finalidade fazer afastar da acção de rua a extrema-esquerda, como, de certo modo, o reconheceu Álvaro Cunhal no discurso que fez, na praça de touros do Campo Pequeno, no dia 7 de Dezembro.

 

«Por muito que pareça contraditório, o 25 de Novembro fez surgir em vastos círculos até agora apáticos ou colaborantes com a direita uma nova consciência do perigo fascista e uma vontade de acção e intervenção em defesa dum projecto democrático.

A nova e perigosa realidade coloca aos sectores moderados do MFA e do PS a necessidade de corrigir a direcção dos seus ataques, a orientação do seu trabalho, as suas alianças.

Se esses sectores e o próprio PS não querem ser submergidos pela reacção, se querem sobreviver, têm que descolar da direita e retomar uma política de alianças à esquerda, com tudo quanto isso comporta. […].

Não mais uma política de voluntarismo de vanguarda que cuida poder ela própria sozinha fazer a revolução. Não mais o verbalismo pseudo-revolucionário, a concorrência na exaltação em palavras e a ilusão das facilidades e de um ritmo progressivamente mais rápido do processo.

As possibilidades reais da reunificação do MFA e da formação duma frente de resistência ao fascismo, da defesa das liberdades e da revolução, passa não só pela revisão da política de alianças do PS e de certos sectores moderados do MFA, como também pelo combate ao aventureirismo esquerdizante e pseudo-revolucionário, na base da rica e dolorosa experiência recente da revolução portuguesa.»

 

Estas são palavras de Álvaro Cunhal ditas nesse comício de 7 de Dezembro há quarenta e três anos. Só este pequeno trecho, dá que pensar.

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