A banalidade
Toda a gente sabe que a banalização das coisas raras fá-las perder valor e importância. Isto é um conhecimento que os mais carentes de preparação intelectual conhecem desde sempre. Não dou novidade nenhuma.
Vem isto a propósito do diploma legal, aprovado e saído há pouco, que permite aos institutos politécnicos conceder o grau de doutor.
A legislação denominada "de Bolonha" veio facilitar a obtenção do mestrado e do doutoramento, comprimindo o tempo de duração da parte escolar para o primeiro dos graus citados e reduzindo o tempo de execução e tamanho da dissertação respectiva. Não é que eu sofra de algum complexo de superioridade, mas, o que me leva a tecer estas considerações é o facto de um mestre, que se "faz" em dois anos, não me dar garantias de especialização de espécie nenhuma, quando obteve a licenciatura ao cabo de três anos de curso. Com cinco anos, fazia-se a licenciatura há coisa de quarenta ou cinquenta anos atrás!
Não faço comparações de conteúdos; faço-as de tempo... E o problema tempo, no saber, é fundamental!
O doutoramento fica ao alcance de todo aquele que obtém o grau de mestre. E, agora, também, ao de todos os que são mestres pelos institutos politécnicos.
Para se perceber o que acho de anómalo nesta questão é necessário levar em conta aquilo que diferencia ou diferenciava - já não se isto se mantém! - o ensino universitário do ensino politécnico: no primeiro, aprende-se a solucionar problemas complexos numa determinada área do saber; no segundo, aprende-se a fazer, com base científica, em determinadas áreas técnicas.
Se esta definição foi alterada, então não vale a pena manter a distinção entre institutos politécnicos e universidades!
O doutoramento, por definição, habilita o doutor a fazer investigação científica de modo autónomo e responsável. E é aqui que reside o busílis da questão! A bota não bate com a perdigota!
Vamos vulgarizar o que não devia ser vulgarizado, perdendo competências.
Somos assim, com esta ânsia de obter títulos, mesmo que já não tenham conteúdo.