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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Trinta anos depois


Faltam poucos dias para a passagem do aniversário do chamado «golpe» de 25 de Novembro. A História parece estar feita. Ainda agora, o semanário Expresso traz uma larga reportagem sobre o assunto.


Mas estará, de facto, feita a História do «25 de Novembro»?


Essa foi a data assumida, logo na altura, como sendo a do fim do processo revolucionário em curso (PREC). Tendo vivido os acontecimentos tenho uma opinião justificativa que diverge bastante de todas as que por aí circulam. Vou arriscar dar-lhe publicidade, como mera hipótese académica. Afinal, já passaram 30 anos!


Comecemos por nos situar no dia 11 de Março de 1975. Ao fim do dia estava criada a oportunidade de se avançar, sem rebuço, para as nacionalizações. Era imprescindível que assim se fizesse, porque não estando dominada a alta finança comprometida com o Estado Novo, o perigo do retrocesso era constante. E, a tal propósito deveria haver plena concordância entre Washington e Moscovo, por uma causa comum: as independências das colónias. Para ambas as capitais tinha de ser irreversível a descolonização, porque uma vez concluída, o teatro de confronto entre as duas super-potências passaria a ser em África, apoiando ou combatendo quem ficasse detentor do poder. Portugal era um teatro de operações político que, logo depois de retirar as suas tropas do continente africano, deixaria de ter interesse para os EUA e para a URSS. Importaria manter os Açores na órbita de Washington, nada mais.


Ora, as Forças Armadas haviam-se dividido, em consequência de cada qual entender a democratização segundo modelos teóricos pré-definidos e não como objectivos a alcançar com pragmatismo.


Cientes desse pragmatismo estavam os estados-maiores dos dois grandes partidos da altura: PCP e PS.


O PREC, em ritmo acelerado, tinha de reduzir o passo para se conseguir uma integração no modelo de democracia ocidental. Pessoalmente, julgo que Moscovo não estava interessado em empenhar-se num desequilíbrio europeu capaz de transformar a «guerra fria» em «quente», por causa de Portugal ou, até mesmo, por causa dos Açores. Washington, depois da última independência colonial, ficaria indiferente a que a democracia portuguesa incluísse o PCP ou o excluísse.


Se aceitarmos este cenário, temos que, para a ala progressista do MFA não comprometida com o PC, importava «abrandar» a «aceleração» revolucionária sem exclusão deste partido; ao Partido Comunista interessava continuar no processo de democratização, mas libertando-se da irrequietude de uma extrema-esquerda inconsequente, desvairada e sem significativos apoios internacionais.


Temos, por conseguinte, a explicação por que o «25 de Novembro» foi a 25 e não a 8 de Novembro ou a 25 de Outubro. A reviravolta dever-se-ia dar depois de 11 de Novembro, ou seja após a independência de Angola. Tudo o que acontecesse de seguida, em Portugal, seria da exclusiva responsabilidade dos Portugueses.


Depois da chegada a Lisboa das últimas tropas regressadas de Luanda, o fim da «bagunça» impunha-se de imediato. Ao mais alto nível do PCP — não me repugna a ideia — sabia-se da preparação de dois «golpes», o dos militares que pretendiam a desaceleração do PREC e o dos que, pelo contrário, inebriados pela euforia popular, desejavam uma tomada de poder pela extrema-esquerda. No quartel-general comunista deixou-se que ambos corressem para o afrontamento sem dar apoio aos primeiros e esperando que o bom-senso dos segundos travasse uma «caça às bruxas» (entenda-se, aos comunistas) que as alas mais reaccionárias do tecido social português tanto desejavam por incapacidade de perceber esta teia complexa de interesses cruzados. Ernesto Melo Antunes, o Homem lúcido e pragmático do MFA, logo no dia seguinte, à noite, na televisão, desmobilizou quaisquer veleidades contra os comunistas, chamando a atenção para a importância que eles tinham na construção da democracia no nosso país.


Tudo o que se passou, depois de 25 de Novembro de 1975, foram atitudes de mera vingança mesquinha, muitas vezes movida por despeitos pessoais mal resolvidos.


Se a hipótese que acabo de colocar algum dia for provada, ter-se-á de refazer a História, retirando certas glórias ao PS — por não ter sido, realmente, o «salvador» de Portugal das «garras» comunistas —, atribuindo ao marechal Costa Gomes a lucidez e a calma de ver para além dos acontecimentos — ilibando-o da grosseira imagem de alguém que flutuava ao sabor das ocorrências — e, finalmente, fazendo justiça aos militares do MFA — a todos sem excepção — por terem sabido fugir à tentação de uma guerra civil onde correria sangue de irmãos, afinal, por coisa nenhuma.


É esta tranquilidade, esta ponderação, este saber conduzir processos quando o caos parece comandar tudo, que os políticos, desejosos de fama e glória junto das gerações vindouras, em especial aqueles que, não tendo vocação castrense, não perdoam aos Soldados de Portugal os únicos a quem se deve a Democracia que eles — os arrogantes profissionais da política — têm vindo a atraiçoar.

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