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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Caixinha de surpresas

 

Ontem, 29 de Novembro, fomos surpreendidos com a notícia que Lisboa, em Março de 1975, teria dado indicações a Washington de não se opor militarmente à invasão indonésia do território de Timor Leste. Sabemo-lo, porque só agora foram abertos arquivos secretos americanos onde se guardavam tão singulares documentos.


Durante alguns dias — se calhar aproveitando a pré-campanha para as eleições presidenciais — vai ser explorada esta recente informação. Depois, depois tudo cairá no esquecimento, como vai sendo habitual entre nós, cada vez mais absorvidos por esta sociedade de consumo rápido. Esquecimento até que, de novo, se abra a caixinha das surpresas sobre Timor e de lá salte outra novidade.


Para mim, que, posicionado aqui em Lisboa, acompanhei os episódios do quotidiano de há 30 anos dividido entre dois sentimentos — o de cidadão afectado pelas ocorrências do dia-a-dia e o do observador histórico a viver a própria História —, estas descobertas vêm confirmar suspeitas reservadas no meu íntimo durante as últimas três décadas. Com base nesse motivo, sinto-me autorizado a escrever sobre a notícia vinda agora a público.


Os homens e mulheres que hoje têm 40 anos eram crianças inocentes em 1975. Pouco ou nada recordam desses meses que mudaram a vida e os destinos de Portugal. A sua «virgindade» memorial leva-os a acreditarem em tudo o que oiçam ou leiam dito ou escrito por quem eles julgam autorizados no conhecimento da matéria. Nós, os mais experientes, sabemos como se deturpa a verdade para daí tirar dividendos. Ora, em traços largos, a verdade é que há 30 anos, em Março, se vivia a mais completa confusão social no país. Os Portugueses queriam encontrar o caminho do futuro, mas, sem experiência política, ensaiavam as mais diferentes vias levados por todas as «sereias» que lhes cantavam aos ouvidos. Os oprimidos, as vítimas de um regime ditatorial que durara 48 longos anos, desejavam, de um dia para o outro, ver mudada a sua condição. Gritavam os operários, barafustavam os agrários, fugiam assustados os patrões, tomavam-se de assalto as casas devolutas, acusava-se este e aquele de fascista ou reaccionário, de comunista ou revisionista. As ideologias andavam no ar. Os soldados e os marinheiros recusavam a autoridade simples das hierarquias tradicionais, aceitando as revolucionárias e as que mais laxismo permitiam. Tudo era contestado, porque tudo era contestável. No Norte, as populações, mais tradicionais, viviam assustadas perante a hipótese de uma revolução comunista; no Sul, porque tradicionalmente mais explorados, os trabalhadores clamavam por um sistema justo de distribuição da riqueza.


Manter o equilíbrio e a tranquilidade neste mar encapelado foi muito difícil. Era preciso um extraordinário esforço de distanciamento como se tudo o que se passava à nossa volta fosse um filme visionado num ecrã gigante e nós simplesmente estivéssemos sentados na plateia.


Expostos os contornos de uma situação social altamente complexa, pode perguntar-se: — Causa alguma estranheza que de Lisboa se tenha dado a resposta que agora os arquivos revelam? Quem viveu tudo isto e quiser ser honesto tem de concordar que era impossível fazer mais. O reforço militar mandado para Timor foi uma simples companhia de Pára-quedistas numa altura em que ainda eram uma tropa de elite. O seu poder de combate embora respeitável, não seria suficiente para se opor a um desembarque em forma de tropas invasoras. Recuarem para as montanhas e dali manterem os Indonésios fixos em Díli e suas redondezas era uma operação possível de ser tentada se se tivesse a certeza que, mais tarde ou mais cedo, chegariam reforços de Lisboa e, acima de tudo, apoio logístico. Nada disso estava assegurado, pelo contrário. O próprio desentendimento político entre Timorenses impedia a opção sugerida. Já então o irrealismo e a incapacidade dos Americanos para avaliarem as situações de povos cujos hábitos desconhecem foi claramente relevada face aos documentos agora trazidos a público.


Vale a pena meditar nesta questão para se perceber como os actuais «donos do mundo» são soberanamente ignorantes!

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