Há noventa anos
Passam hoje noventa anos sobre a data em que o ministro dos Negócios Estrangeiros português recebeu a nota de declaração de guerra da Alemanha a Portugal. Foi o primeiro passo que demos na beligerância.
A entrada na guerra, que havia estalado na Europa dezanove meses antes, era uma espécie de carta de alforria em relação à Grã-Bretanha. Temia-se, em Lisboa, a repetição do que acontecera cem anos antes, com as invasões francesas e, especialmente, o desaforo diplomático que foi o Congresso de Viena, de 1815, onde os representantes ingleses se sobrepuseram aos portugueses, obrigando-os a aceitar para o país aquilo que os saxónicos entendiam ser bom e conveniente. Foi desde essa data que mais se acentuou a dependência de Lisboa em relação a Londres.
A declaração de guerra da Alemanha, porque feita contra os desejos do Foreign Office, mas de acordo com os desejos de Lisboa, transformou-se num rude golpe no já consagrado poder funcional da Inglaterra em Portugal.
Claro que o país não tinha condições materiais de entrar num conflito tão absorvente quanto o foi a Grande Guerra mais tarde designada 1.ª Guerra Mundial mas sobrepondo-se àquelas razões estão sempre as motivações de Estado. E para as saber defender não basta ser político; é necessário ter o estofo de um verdadeiro estadista.
O arquitecto da beligerância portuguesa o Doutor Afonso Costa , embora pequeno de tamanho, era politicamente grande! Tinha o instinto da governação e a clarividência que só poucos afortunados conseguem ter nesse meio.
Porque a ameaça sobre Portugal não era imediata, nem evidente, a beligerância foi contestada logo de imediato por muitos. De tal forma essa contestação ganhou direitos de cidadania que ainda hoje há quem virulentamente ataque a decisão de há noventa anos. São os ignorantes da História ou os incapazes de perceber que a grandeza das pátrias não se faz só com números e cifrões. Desses não devia a História ocupar-se, porque a sua dimensão física e moral é baixa e insignificante.
