Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

O juramento do meu Tio José

 

 
O meu Tio José, irmão mais novo do meu Pai, morreu em 1993, com a idade de 70 anos, na sua terra natalícia. Contactámos pouco, ao longo da vida, mas era daquelas pessoas de quem se gosta logo à primeira vista.
Nascido na mais ocidental das povoações europeias — na Fajã Grande, na ilha das Flores — aos vinte anos era um rapaz simples, com a quarta classe do ensino primário, habituado ao amanho da terra, a tratar das vacas, a ajudar o meu Avô nos moinhos da Ribeira das Casas. Amava desde criança a mesma moçoila — a Maria de Lurdes — com quem andara na escola e com ela iria casar.
Chegou a altura de ser incorporado nas fileiras do Exército de Portugal e eis que faz a sua primeira grande viagem por mar rumo à ilha Terceira onde foi instruído no manejo das armas para, depois jurar bandeira. E jurou bandeira, após a recruta, numa festa solene como era usual fazer-se nesse tempo. Estavam presentes todas as autoridades militares, civis e religiosas da Ilha. Jurou com a convicção simples dos homens das nossas aldeias daquela época. Jurou com a convicção de uma educação religiosa e com a força que as palavras tinham entre os homens de poucas letras. Jurou com o coração. Jurou dar a vida, se tal fosse necessário, pela Pátria. Jurou de braço direito esticado em direcção à bandeira de Portugal.
Tão bem cumpria e tão diligente se mostrou que, na primeira escola de cabos que houve, foi nomeado para a frequentar e acabou cabo quarteleiro da sua unidade. Cumprido o serviço militar, regressou à Fajã Grande disposto a juntar dinheiro para montar casa e contrair matrimónio com a “sua” Maria.
 
Casaram. Criou o seu próprio negócio de mercearias e artigos variados no lugar da Ponta da Fajã Grande. Nasceram dois filhos e face aos encargos era, então, necessário pensar num outro rumo para a vida, pois o negócio não rendia nem as terras davam para o sustento condigno da família.
Como a Tia Maria de Lurdes havia nascido nos Estados Unidos da América era, simultaneamente, cidadã portuguesa e americana. Isso abriu-lhes uma janela sobre um futuro mais risonho: emigrarem para os “States”. Assim como foi pensado, assim foi feito. A minha Tia foi para a Califórnia trabalhar e arranjar emprego para o marido, podendo, desse modo, mandar a “carta de chamada” para juntar todo o agregado familiar. Meses mais tarde estavam reunidos na sua primeira casa americana. O meu Tio a fazer o que sabia: cuidar de vacas e à noite a ir frequentar a escola para aprender o inglês suficiente não só para ganhar o pão de cada dia como, também, poder naturalizar-se cidadão americano, como obrigatório, por ser casado com uma americana.
Uma vez aprovado na escola havia que passar à formalização da cidadania. Com os papéis tratados e em ordem foi-lhe marcado o dia para fazer o juramento de bandeira numa cerimónia simples, mas carregada de significado, pois era levada a cabo diante de um juiz devidamente empossado para esse efeito.
O meu Tio José vestiu o seu melhor fato, colocou a gravata, aprumou-se de acordo com a ocasião e lá foi ao departamento respectivo provar que tinha condições para ser cidadão americano. Era importante, porque as oportunidades de futuro para os filhos perspectivavam-se bem diferentes das que a Fajã Grande poderia alguma vez oferecer. Na vida, muitas vezes, fazemos tudo em nome do bem-estar dos nossos filhos!
Prestadas as primeiras provas, demonstrado que falava, lia e escrevia com alguma fluência na língua inglesa, interrogado sobre a Constituição Política dos EUA, foi convidado a, frente à bandeira, estender o braço e dizer a fórmula do juramento e, nesse momento, o Tio José não conteve as lágrimas. Entre soluços profundos, disse as palavras que o obrigavam, agora, a honrar a pátria de adopção.
Admirado o juiz perguntou-lhe qual a motivo das suas lágrimas e da dificuldade de dizer a fórmula de juramento. Na sua simplicidade de homem nascido e crescido numa pequena freguesia de uma pequena ilha dos Açores, o Tio José disse:
— Chorei, pois Deus sabe como me senti, porque há anos jurei dar a vida pela minha Pátria, Portugal, e agora estou a fazer um novo juramento semelhante! Sinto-me um traidor!
Retorquiu o juiz, com a sabedoria de muita experiência, de muita diplomacia aprendida e com o sentimento da verdade: — Fique sabendo que de muitos homens como o senhor precisam os EUA, porque esses sabem o valor de um juramento!
 
Neste Natal, em memória do meu Tio José, apeteceu-me contar, no «Fio de Prumo», esta estória verdadeira. A estória dos Homens que sabem o valor de um juramento!

 

8 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2006
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2005
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D