Associativismo Militar

De vez em quando ainda me chegam aos ouvidos as recriminações de camaradas que estiveram desde a fundação com o movimento associativo militar. Queixam-se de verem, agora, na primeira linha desse mesmo associativismo alguns outros camaradas que, há anos, ainda os acusavam de posicionamentos errados.
Compreendo o desgosto dos pioneiros, a sua mágoa, mas fico a pensar que a verdade e a boa razão vêm sempre ao cimo tal como a gota de azeite. Felizmente, hoje podemos contar com os relutantes e críticos de ontem. Isso quer dizer que estávamos na boa e na correcta posição. Mas também quer dizer que tais camaradas são pessoas de bem, porque, ao contrário de se entrincheirarem na sua falsa luta, foram capazes de mudar e vir ao nosso encontro. Façamos uma grande festa para nos regozijarmos com a adesão desses nossos amigos.
Claro que compreendo os motivos das relutâncias associativas do passado. Basta pensarmos que é mais fácil fazer uma revolução política do que uma revolução das mentalidades. Estas evoluem muito mais lentamente.
A minha geração nasceu e cresceu dentro dos princípios do conservadorismo ditatorial do Estado Novo, cujo visceral inimigo era o comunismo. Fomos criados em especial os «meninos das cidades» no respeito «aos nossos chefes, nossos pais» (para recordar o verso de um dos hinos da malfadada Mocidade Portuguesa). Incutiram-nos valores quanto a certos comportamentos que, ainda hoje, 31 anos depois de termos conquistado a liberdade, sub-repticiamente, se vêm instalar no nosso espírito, condicionando-nos certos comportamentos.
O conceito de militar, patriota, livre para todos os trabalhos, pronto para servir sem recompensa foi repescado pelos ideólogos do Estado Novo, na exaltação de um nacionalismo inebriante, de concepções ligadas à obediência cega à vontade real, própria do fim da Idade Média e do começo da Idade Moderna. O nobre e cavaleiro que se prezava estava sempre disponível para o serviço do seu rei isto diz-se em alguns compêndios de História, esquecendo de acrescentar que «tanta disponibilidade» esperava pingues recompensas da fazenda real. Foi assim que, por essa Europa fora, se construíram grandes casas nobres!
Curiosamente, durante a vigência do Estado Novo, dizia-se dos militares que eles viviam da e na «miséria dourada» o que era um facto , mas, por outro lado, às Forças Armadas e seus elementos foram dadas em especial no tempo de Salazar certas pequenas regalias que, de forma canhestra e transversal, vinham compensar quase tudo o mais. Depois, havia, de facto, os «barões» militares que, servindo o regime, sabiam servir-se ou eram por ele bem recompensados. Existia neste sistema algo de semelhante ao quadro medievo que antes referi. Mais uma vez, a minha geração militar foi educada ainda dentro destes princípios, embora nós, os de entrada nas fileiras a partir de 1960, tenhamos começado a fugir ao figurino que nos impunham, por isso fomos os que arriscámos fazer a Revolução.
Os tempos mudaram e, se se mantém como verdade inalterável todo o patriotismo, todo o espírito de sacrifício, toda a disponibilidade para servir as causas que superiormente servem o interesse nacional, também é verdade que já não estamos dispostos a viver das mercês de um poder político que, afinal, o é por vontade de todos os Portugueses, para servir os Portugueses. Assim, justificam-se as associações militares como parceiros de diálogo com o Governo, mas, também e talvez até mais, com as chefias militares que, infelizmente, teimam em olvidar o importante papel do associativismo castrense como veículo dos anseios de todos os militares (daqueles por quem os chefes são responsáveis e dos que já não têm chefes).
Só um certo estrabismo mental leva a não perceber que as associações castrenses, ao contrário de serem elementos de instabilidade, são instrumentos de estabilidade, porque, a alternativa à contestação ordeira foi e é, desde os tempos de Roma até à actualidade, a revolta militar.
