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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

11.12.05

Arma de arremesso


Luís Alves de Fraga

As associações militares e os seus dirigentes têm feito tudo o que eticamente está ao seu alcance para protegerem os interesses dos profissionais castrenses. E têm-no feito no respeito pela mais estrita legalidade, mesmo quando ela é de uma profunda injustiça. O esforço e o sacrifício, bem como o seu saber, merecem de todos nós muita estima e muita consideração.


Entre as várias movimentações que os dirigentes associativos levaram a cabo uma teve mais impacto na resolução do diferendo que nos opõe ao Governo José Sócrates: a audição por parte dos grupos parlamentares minoritários, na Assembleia da República.


É curioso o facto de todos se terem entendido — e pelos vistos, bem — para conseguir que sejam feitas reapreciações da legislação recentemente saída, a qual tanto lesa os nossos interesses — pequenos interesses, diga-se em abono da verdade — capazes de minorarem os baixos vencimentos que nos são pagos.


Isto prova à saciedade, por um lado, a injustiça das medidas governamentais, por outro, o enorme poder de argumentação dos líderes associativos que nos defendem. Mas prova, também, outra coisa: é que os problemas das Forças Armadas ainda são uma excelente arma de arremesso entre os políticos. Hoje são estes que a usam contra aqueles; amanhã, se preciso for, são aqueles que a usam contra estes. No meio, estamos nós e, pior do que tudo, estão os reais interesses da defesa da Nação.


Neste vai e vem de cá para lá entre políticos e grupos com assento no parlamento é possível que haja ainda algum benefício para os militares, mas eticamente não deveria ser assim. A classe política teria de ter vergonha do jogo que está a fazer, porque toda ela, ao longo de mais de vinte anos, contribuiu para a degradação das nossas condições de vida e, mais grave, deixou que, como força, fossemos ficando obsoletos e incapazes de desempenhar com eficiência — conceito que os políticos desconhecem, pois, socorrem-se frequentemente da eficácia, em alternativa! — a missão a nós confiada pelo Povo português.


As Forças Armadas não podem ser arma de arremesso entre políticos. São assunto demasiado sério para que lhe dêem tal utilidade. As Forças Armadas e tudo o que a elas respeita deveriam merecer o consenso da classe política, porque não havendo esse entendimento entre quem governa e quem, no parlamento, critica o Governo, deixa evidenciado o antipatriotismo dos que, afinal, dizem defender os altos interesses de Portugal. Há valores que não se discutem, porque estão muito acima da política corriqueira pronta à satisfação de desejos vis e particulares. Um desses valores é o da defesa da Pátria e, para que tal seja possível, em última instância, as Forças Armadas têm de estar cercadas de uma aureola de intocabilidade absoluta. Mas o governantes nacionais sempre pecaram por descuidarem a magna questão castrense. Assim se ligaram à História Militar nomes como o conde de Schomberg, o conde de Lippe, o marechal Beresford, todos estrangeiros, que, em momentos de grande perigo, vieram organizar a defesa descuidada pelos Portugueses. Nos tempo modernos, basta recordar todo o improviso que foi a mobilização para a participação na 1.ª Guerra Mundial, para a manutenção da neutralidade armada nos Açores e Cabo Verde, durante a 2.ª, bem como, mais recentemente, a instalação das Forças Armadas em Angola, no ano de 1961. Esta constante é própria de um país onde quem governa desleixa o fundamental e assim se perdeu Olivença, se deixou invadir duas vezes Timor, durante a 2.ª Guerra Mundial, e se permitiram os cruéis massacres de Março de 1961, no Norte de Angola. Depois, quando o «fogo» já consome os haveres, pede-se aos militares profissionais que façam «milagres», desdobrando-se em múltiplas tarefas, improvisando o que a cautela e cuidadosa consciência devia, atempadamente, ter prevenido. Os governantes, em Portugal, cultivam a imprevidência. Por isso, enquanto os Portugueses se podem orgulhar das suas Forças Armadas, as Forças Armadas não se devem orgulhar dos governantes portugueses. Triste sina!


 

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