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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Conflito de gerações militares?

Há tempos, veio-me parar às mãos um documento extraordinário: uma acta de um conselho disciplinar da Academia Militar, de Março de 1965. O resultado final foi conclusivo — exclusão de quatro alunos a poucos dias de acabarem os respectivos cursos. Os considerandos feitos nesse conselho são espectaculares pelo que revelam da mentalidade dos oficiais da época — a maioria eram majores, tenentes-coronéis e coronéis. Em tempo e local oportuno darei a devida publicidade, com as considerações resultantes de uma análise e interpretação profunda, ao documento que já caiu, por diversas vias, no domínio do conhecimento público.


Isto vem, de facto, a propósito do título escolhido para esta crónica. Terá havido, ao longo dos tempos, conflitos de gerações de oficiais?


Por mais que medite e analise documentos castrenses do século XIX, começo do século XX e inicio do presente, chego sempre à conclusão da inexistência desse fenómeno entre militares. Pontualmente, aqui ou ali, parecem aflorar estados de espírito, configurando traços de conflito de tal natureza. Contudo, trata-se mais de casos individuais ao invés de colectivos. Surge, todavia, algo que, numa interpretação superficial e leviana, seria passível de comparação a um conflito de gerações, mas, realmente, trata-se de um outro tipo de confronto, bem mais profundo, nada tendo a ver com a idade dos intervenientes.


Na minha opinião, esses confrontos são resultados de mentalidades alteradas por elementos estranhos ao meio castrense, pertencentes mais ao domínio do social e do político.


Com efeito, os ciclos de confronto, desfasadamente, coincidem com alterações do âmbito político nacional, com referência a modificações internacionais. Isso aconteceu do absolutismo para a o constitucionalismo (entre 1834 e 1850), da Monarquia constitucional para a República (entre 1910 e 1933), da ditadura do Estado Novo para a Democracia (entre 1974 e 1982) e da Democracia para a Globalização (entre 1982 e 2005, por estarmos nesse ano e não arriscar a fazer futurologia).


A diferença de um «velho» coronel, que o foi há 15 ou 20 anos, para um «jovem» coronel promovido ontem não resulta das idades; resulta do modo como cada um olha para a mesma realidade. Como olha e, mais do que isso, como a compreende. As mudanças sociais, económicas e políticas, ocorridas desde o fim do Conselho da Revolução e a era do pleno conceito de operações de paz, são profundas. Nós fomos educados militarmente para fazer a guerra, para defender soberanias e independências; os novos oficiais «cresceram» a ouvir falar de guerras que são operações de paz, de intervenções armadas para impor ordem política. O confronto entre ideologias ocidentais e orientais (entenda-se «capitalismo» e «comunismo») é algo do passado, é um tema que já está na História e justificou um determinado género de armamento e um certo conjunto de doutrinas de emprego dos meios militares.


Esta mudança, meramente debuxada a traços muito amplos, atenua conceitos que nós, os «velhos», tínhamos como pilares conformadores da nossa postura perante a política e os políticos (note-se que não é impunemente que foi sobre nós que recaiu o ónus da mudança, em Portugal) e que já não são exactamente os mesmos dos «novos» oficiais. Para eles, a democracia é um dado adquirido e não questionável — em especial na condução dos negócios públicos —, enquanto para nós, que fomos a sua parteira, ela é questionável, em especial o modo como se executa.


«Velhos» e «novos» militares continuam a venerar os mesmos símbolos e os mesmos valores, porém, já não estão nos mesmos sítios, porque as perspectivas pelos quais os olhamos não são coincidentes.


São evoluções e só não será, na verdade, velho quem for dialecticamente capaz de compreender estes ajustamentos tectónios das placas político-sociais.

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