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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Família Militar

 

 
Alguém pouco ligado às coisas castrenses me perguntou outro dia: — O que é isso de Família Militar?
Não é fácil responder, assim de chofre, a esta questão colocada por quem desconhece de que consta a vida de um militar. Não é fácil, porque o vulgar cidadão ganha uma rotina de vida que só é alterada nas férias ou, quando é, na reforma. De facto, escolhe habitar num determinado local e trabalhar próximo ou distante e só por percalços inesperados — cada vez mais frequentes no nosso país e nos tempos que correm — poderá ter de mudar qualquer das duas constantes anteriores. Uma vez instalado numa determinada zona será comum os filhos crescerem por lá e por lá frequentarem as escolas, fazendo a sua preparação para a Vida. Se a fortuna o bafejou e teve cabeça e oportunidade para fazer poupanças, é provável que tenha podido arranjar uma segunda casa de férias, para onde vai em certos fins-de-semana e no mês de repouso laboral.
Ter uma vida assim, tranquila e certinha, entre os militares é pouco comum; diria mesmo que constitui excepção. De facto, em princípio, a área do território nacional é a da nossa residência permanente. Onde estiver uma unidade militar pode estar o nosso local de trabalho. Ora, tal condicionalismo leva a que se tenha de fazer opções: ou se fixa o agregado familiar a uma localidade e cada um de nós vai, depois, para onde o mandarem, ficando privado do contacto diário dos seus entes mais próximos ou, pelo contrário, desloca-os para a urbe mais contígua da sua unidade.
Na primeira escolha resolve sacrificar-se e sacrificar a família; na segunda, opta por sacrificar mulher e filhos, obrigando-os a uma nova reinserção social, beneficiando a família da sua presença sempre que o horário de serviço lho permita.
 
É meu Amigo um camarada que decidiu, há muito tempo, instalar a família no Entroncamento, por estar mais perto da Base Aérea de Tancos. Que me recorde, nos últimos quinze ou dezoito anos de serviço, esteve sempre colocado em unidades distantes daquela zona facto determinante de só ir a casa nos fins-de-semana. Não acompanhou a última fase do crescimento dos filhos, deixando à mulher esse encargo. Reformado, finalmente, está a envelhecer na casita que tem no Entroncamento. Confessou-me, há tempos: — Tive de reaprender a viver todos os dias com a minha mulher… Estávamos desabituados um do outro! O sábado e o domingo não davam para perceber como havíamos mudado tanto!
 
Depois, há as idiossincrasias próprias de cada Ramo das Forças Armadas. Realmente, em princípio, as bases aéreas estão localizadas próximo de zonas urbanas, tal como os quartéis do Exército, mas já o mesmo não acontece com a Armada: o militar embarcado distancia-se completamente da família e acresce que também pode ter uma mobilidade ao nível nacional mais ampla ainda do que a dos restantes militares — por exemplo, no caso de serviço em capitanias de porto. Todos estes factores estabelecem uma diferenciação quase abismal relativamente aos trabalhadores civis. É essa dissemelhança que tem de ser levada em consideração por quem governa, porque, sendo o militar um servidor do Estado, não é um funcionário público. Este tem rotinas duradouras e para aquele nada é garantido, estável e permanente. Por isso, na ausência de cada um de nós do seio da família esta tem de saber procurar sobreviver e essa foi a razão pela qual se criou e difundiu o conceito de Família Militar: na falta do marido, mulheres e filhos sabiam que lhes era possível socorrerem-se no momento preciso de todos os sistemas assistenciais militares — em especial do sanitário — disponíveis para suprir carências e soluções. Na ausência do marido e do pai a mulher e os filhos sabiam que, pelo menos, o apoio na doença estava assegurado em condições mais humanas e personalizadas do que nos hospitais onde acorrem os cidadãos comuns, até os que não têm ninguém.
 
É essa solidariedade, resultante de todos estarem sujeitos às mesmas contingências, que define o conceito de Família Militar. Até a viúva sabia que se pedisse auxílio às instâncias castrenses era atendida com respeito e dignidade. No seio da comunidade castrense tinha-se a certeza de se contar com apoios humanizados por força de uma consciência de rotação nos sacrifícios, nas dores e nos sofrimentos. Poder-se-á continuar a ter?
 
O conceito de Família Militar foi sendo construído entre nós no século XIX, quando o Estado ainda mal provia às necessidades dos seus mais nobres servidores, através de sistemas de mutualidade e de cooperativismo.
 
É este conceito que os Governos de Portugal, desde o tempo do não falado, mas jamais esquecido, ministro da Defesa Fernando Nogueira e, agora, destes dois — Luís Amado e Severiano Teixeira — encarniçadamente procuram demolir, retirando-nos todas as conquistas assistenciais conseguidas, ao longo de um século, à custa de muitos sacrifícios e, até, de sangue.
 
Não podemos assistir impávidos à destruição do que é nosso por direito. Não somos funcionários públicos! Por alguma razão, no tempo da ditadura, Marcello Caetano determinou a criação da Assistência na Doença aos Servidores do Estado distinta da Assistência na Doença aos Militares (diferente, também, para cada Ramo). Temos a mais abnegada das profissões, a única onde se jura dar a vida, se necessário for, para servir a Pátria.

 

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